As Ilhas Baleares, no imaginário global, são um sinônimo de paraíso. Um arquipélago de sol, praias de água turquesa e uma vida noturna que atrai o mundo. Mas por trás da fachada de Ibiza, Maiorca e Formentera, uma crise silenciosa corrói o tecido social: os próprios moradores estão sendo expulsos, incapazes de competir no mercado imobiliário contra o capital estrangeiro que busca uma segunda casa ou um ativo para investir.
O governo autônomo da região agora é forçado a encarar o impensável. Segundo reportagem da Forbes España, o executivo considera aplicar limites à compra de residências por não residentes. A porta foi aberta por uma nova diretriz da Comissão Europeia, que reconhece a pressão imobiliária em certas regiões. A medida, antes vista como uma heresia contra o mercado único europeu, hoje é analisada como uma ferramenta de sobrevivência.
O preço do paraíso
Antoni Costa, porta-voz do governo balear, afirmou que nenhuma proposta é rejeitada de antemão. A condição é que as medidas se provem “eficientes e eficazes”. A frase revela o dilema: não se trata de uma cruzada ideológica, mas de um cálculo pragmático. A lógica do mercado, deixada à solta, pode otimizar o valor do metro quadrado, mas ao custo de desintegrar a comunidade que dá vida e sentido ao lugar.
O debate nas Baleares é um microcosmo de uma tensão global, visível de Lisboa a Vancouver, passando por vários destinos brasileiros. Até que ponto um local pode ser um produto no mercado global antes de deixar de ser um lar? A proibição de novas moradias de uso turístico, já em vigor na região, foi um primeiro passo. Limitar a propriedade é um movimento muito mais profundo e controverso.
Quem pode morar no paraíso?
A discussão não é sobre xenofobia, mas sobre sustentabilidade social. O fluxo de capital que inflaciona os imóveis é o mesmo que financia o turismo e a economia local. Encontrar o equilíbrio é o desafio central. A proposta europeia, ainda com um “longo caminho a percorrer”, segundo Costa, oferece uma base legal para que governos locais possam intervir onde o mercado falhou em garantir um direito básico.
A questão que fica para as Baleares, e para tantos outros lugares mercantilizados pela sua própria beleza, é fundamental. Um paraíso que não pode abrigar seus próprios professores, enfermeiros e garçons pode continuar a se chamar de paraíso? A resposta que o arquipélago espanhol encontrar para essa pergunta pode ecoar muito além de suas praias.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





