Em um ensaio para a revista Persuasion, o cientista político Francis Fukuyama projeta um cenário para o fim de um hipotético segundo mandato de Donald Trump, em 2026, e analisa sua consequência mais duradoura: uma enorme concentração de poder no Salão Oval. A questão que se impõe, segundo ele, não é apenas sobre o legado de Trump, mas sobre o dilema que qualquer sucessor, democrata ou republicano, herdará. Diante de uma presidência com autoridade expandida, a tentação de usar essas ferramentas em vez de restaurar os limites institucionais será imensa.

A tese de Fukuyama é que a administração Trump não apenas testou os limites da autoridade executiva, mas os reescreveu fundamentalmente, com base em uma doutrina jurídica e um plano político bem definidos. A consequência é uma transformação do Estado americano que transcende a figura do próprio Trump, criando um precedente que pode redefinir o equilíbrio de poder em Washington por gerações. O desafio para o futuro não será apenas reverter políticas, mas decidir se o próprio conceito de poder presidencial deve ser recalibrado para seus contornos pré-Trump.

A arquitetura da hiperpresidência

A base intelectual para essa expansão de poder é a teoria do “executivo unitário”. Defendida há décadas por juristas conservadores, a doutrina argumenta que a Constituição americana concede toda a autoridade do Poder Executivo exclusivamente ao presidente. Na prática, isso significa que agências reguladoras, comissões e toda a burocracia federal deveriam estar sob seu controle direto, eliminando a independência de órgãos técnicos e conselhos multissetoriais que foram desenhados para operar com autonomia política.

Fukuyama aponta para uma hipotética decisão da Suprema Corte, batizada de Trump v. Slaughter, como o golpe de misericórdia no antigo sistema. Tal decisão derrubaria um precedente de 1935 (Humphrey’s Executor) que protegia a estabilidade dos diretores de agências independentes, permitindo que o presidente os demita por vontade própria, e não apenas por justa causa. Embora a Corte, no cenário de Fukuyama, proteja a independência do Federal Reserve por seu status histórico, o princípio estaria estabelecido: o presidente é o chefe incontestável de todo o aparato executivo. A separação de poderes, nesse modelo, ocorreria apenas entre Executivo, Legislativo e Judiciário, e não mais dentro do próprio Executivo.

O fim do Estado técnico

As implicações dessa mudança não são meramente teóricas. A consolidação do poder presidencial, argumenta Fukuyama, representa uma guerra declarada contra a expertise técnica e a favor da lealdade política. O plano, detalhado em projetos como o “Project 2025” da Heritage Foundation, visa desmontar o serviço civil de carreira, criado em 1883 para substituir o antigo “sistema de espólios”, no qual cargos públicos eram distribuídos como recompensa por apoio político. A reclassificação de dezenas de milhares de funcionários públicos sob uma nova categoria, como o “Schedule F”, permitiria sua demissão em massa e substituição por nomeados políticos.

O resultado seria um governo esvaziado de conhecimento técnico e memória institucional. Fukuyama afirma que a competência de um Estado moderno não reside no líder eleito, mas nos especialistas de carreira capazes de gerir crises complexas, de uma pandemia a um colapso financeiro. A teoria do executivo unitário ignora uma verdade organizacional básica: a autoridade, em sistemas complexos, frequentemente flui de baixo para cima, a partir de quem detém o conhecimento prático. Ao transformar o serviço público em um instrumento de vingança pessoal ou de clientelismo, o risco não é apenas a ineficiência, mas a corrupção sistêmica e a incapacidade do governo de responder aos desafios reais do país.

O dilema para o próximo ocupante da Casa Branca será profundo. O sistema anterior, com suas amarras e vetos, era visto por muitos como disfuncional e lento. A tentação de herdar uma presidência com poderes de caneta tão vastos para implementar a própria agenda será enorme. No entanto, ceder a ela significaria validar a arquitetura de poder erguida por Trump, normalizando um modelo de hiperpresidência. Fukuyama adverte que os opositores de Trump precisam, desde já, pensar não apenas em novas políticas, mas em uma estratégia clara para a própria mecânica do poder. A escolha não será entre agendas, mas sobre a própria natureza do governo americano.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Persuasion