Duas mulheres, uma negra, outra de pele morena, com os narizes pressionados contra o tronco de uma árvore. A cena, capturada no poema “Ponderosa Pine” de Liza Sparks, é um ato de comunhão silenciosa. O que elas buscam ali, inalando o cheiro adocicado da casca, é uma resposta a uma pergunta que a própria árvore parece fazer: o que é preciso para continuar de pé? A poesia de Sparks não oferece uma fórmula, mas um espelho. A árvore, um pinheiro ponderosa com mais de cem anos, torna-se um manual de sobrevivência.

A metáfora central é a da troca de pele. Ao envelhecer, o pinheiro descarta uma camada de sua casca, revelando uma nova, de cor “laranja-enferrujada”. A poeta nos convida a decodificar essa cor. A ferrugem evoca a chuva, mas não qualquer uma: “aquela chuva forte... para a qual você não se planejou”. É a marca do imprevisto, do trauma. Mas há também o laranja, a cor do sol, dos cítricos, das “vitaminas”. A nova casca não é apenas uma cicatriz; é a prova de que, após a tempestade, o sol também deixou sua marca. É a integração da dor e da vitalidade.

A resiliência do pinheiro é quase mítica. Ele pode viver quinhentos anos. Pode sobreviver mesmo que um incêndio consuma todas as suas agulhas. “Eles devem saber algo sobre viver”, reflete a poeta. Essa sabedoria não está em evitar o fogo ou a chuva, mas em persistir através deles. É por isso que o poema culmina não em uma lição, mas em uma celebração visceral. “É tão bom estar vivo. É tão malditamente bom estar vivo. Depois dos incêndios. Depois de toda aquela chuva forte.”

O gesto final de pressionar o rosto contra a árvore é, então, mais do que uma apreciação da natureza. É um ato de reconhecimento. É encontrar no ciclo de vida de um ser não-humano o eco da própria jornada, marcada por perdas e recomeços. É a constatação de que, mesmo depois de tudo, ainda é possível respirar fundo e sentir um cheiro doce. E talvez, a maior lição do pinheiro seja essa: a doçura não vem da ausência de dor, mas da capacidade de florescer apesar dela.

Com reportagem de Brazil Valley

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