A explosão da inteligência artificial pode ser uma oportunidade perdida para o Sudeste Asiático. A advertência vem de Edward Lee, economista-chefe do Standard Chartered para a região da ASEAN, em análise publicada pela revista Fortune. Segundo ele, apesar do otimismo com investimento estrangeiro, a região corre o risco de ficar à margem da maior transformação tecnológica atual.
A tese é direta: enquanto economias do Norte Asiático, como Taiwan, Coreia do Sul e Japão, se consolidam como o motor de hardware da revolução da IA, o Sudeste Asiático não conseguiu “subir na cadeia de valor”. O resultado é uma participação modesta em um dos mercados mais estratégicos do século.
O hardware está em outro lugar
A bonança gerada pela demanda por processadores de IA e seus componentes está, em grande parte, concentrada em poucas mãos. Gigantes como a taiwanesa TSMC e as sul-coreanas Samsung e SK Hynix colhem lucros recordes. Em contraste, a contribuição do Sudeste Asiático é secundária.
Embora Cingapura produza semicondutores e a Malásia atue na montagem e teste de chips, a escala é incomparável. Segundo a análise, a região responde por apenas 6% da manufatura global de produtos intermediários, contra 15% da China. É uma presença que não se traduz em protagonismo tecnológico ou econômico.
O dilema do desenvolvimento
Para não se tornar irrelevante, Lee aponta a necessidade de investimentos maciços em pesquisa e desenvolvimento (P&D), um caminho caro e de longo prazo. Cingapura já se move nessa direção com um fundo bilionário, mas a solução não é simples. “Não há uma bala de prata”, admite o economista.
O impacto da IA também não será uniforme. Enquanto Cingapura, Malásia e Vietnã podem se beneficiar de uma maior demanda por manufatura de eletrônicos, outros enfrentam ameaças diretas. O caso mais emblemático é o das Filipinas, cuja indústria de business process outsourcing (BPO), responsável por 8% do PIB, pode ser erodida pela automação.
A análise de Lee transcende a economia, tocando na geopolítica. O critério para o sucesso não é mais apenas produzir “melhor e mais barato”. Em um mundo fragmentado, a resiliência das cadeias de suprimentos ganha um prêmio. Para o Sudeste Asiático, o desafio é duplo: subir na cadeia de valor tecnológica enquanto navega um tabuleiro global cada vez mais complexo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





