A regra era clara: para uma entrevista de emprego, vista-se com o máximo de formalidade. O terno e gravata para eles, o tailleur para elas. Essa convenção, por décadas um pilar do mundo corporativo, ruiu. A ascensão do trabalho remoto e a consolidação de ambientes de trabalho mais informais, aceleradas pela pandemia, tornaram o código de vestimenta uma equação complexa e cheia de variáveis, gerando uma nova camada de ansiedade para profissionais em busca de uma oportunidade.

O dilema foi capturado em uma reportagem recente da revista Fortune. Se antes o desafio era ter um traje adequado, hoje é decifrar qual traje é adequado. A mudança transferiu o ônus da formalidade para a inteligência: em vez de seguir uma regra universal, o candidato precisa investigar a cultura da empresa para não errar o tom. O risco não é apenas parecer relaxado demais, mas também formal em excesso, projetando uma imagem de rigidez ou descompasso com a cultura local.

A inteligência sobrepõe-se à formalidade

Se o terno não é mais a resposta padrão, a pesquisa tornou-se a nova obrigação. A recomendação de estilistas e recrutadores é clara: antes de escolher a roupa, o candidato deve fazer uma diligência sobre a empresa. Isso envolve analisar as fotos no site institucional, vasculhar as redes sociais como o LinkedIn para observar como os funcionários se apresentam e, em caso de dúvida, perguntar diretamente ao recrutador ou gestor da contratação sobre o "dress code" esperado.

O objetivo, segundo os especialistas ouvidos pela Fortune, não é simplesmente imitar o que se vê, mas usar a informação como uma linha de base. A orientação é vestir-se um degrau acima do padrão diário da companhia. Se os funcionários usam jeans e camiseta, uma camisa de botão e um blazer podem ser a escolha certa. A roupa deixa de ser um uniforme de conformidade para se tornar uma ferramenta de branding pessoal, comunicando seriedade, inovação ou liderança, dependendo do cargo e do setor.

A assimetria do código e a busca pela confiança

A transição para a informalidade, no entanto, não é simétrica. A reportagem destaca a frustração de candidatos que, seguindo um código "business professional", se deparam com entrevistadores de camiseta. A expectativa sobre o candidato permanece mais alta. Apresentar-se de forma casual demais ainda é visto como um sinal de desinteresse, criando uma situação onde o profissional precisa navegar uma formalidade que a própria empresa parece ter abandonado.

No fim, o fator mais crucial apontado é a confiança. Uma roupa que gera desconforto ou insegurança pode minar a performance do candidato na entrevista. Sentir-se deslocado no ambiente — seja por estar formal ou informal demais — afeta a clareza das respostas e a postura. A escolha do traje, portanto, transcende a tentativa de impressionar o entrevistador; trata-se de encontrar um equilíbrio que empodere o candidato a apresentar a melhor versão de si mesmo.

O fim da ditadura do terno não simplificou a vida do profissional. Pelo contrário, trocou uma regra simples por uma análise de cenário complexa. A vestimenta tornou-se mais um campo onde se espera que o candidato demonstre bom senso, capacidade de leitura de contexto e autoconsciência — habilidades, afinal, tão importantes quanto as listadas no currículo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune