O atrito diário do trabalho híbrido — da caça por uma sala de reunião vaga à gestão de agendas em fusos horários distintos — tem um preço. Para uma empresa de médio porte, a conta chega a US$ 9 milhões por ano, o equivalente a US$ 14 mil por funcionário. A estimativa, parte de um novo estudo da plataforma de gestão de escritórios Robin, quantifica o que chama de “imposto de coordenação do escritório”. Em termos de produtividade, a perda seria de 10% da semana de trabalho.

Longe de encerrar o debate sobre o futuro do trabalho, o número serve de munição para os dois lados da trincheira. Segundo reportagem da Fortune, que analisou o estudo, a questão é se o dado prova que os puristas do trabalho remoto estavam certos ou se reforça a tese do retorno ao escritório. A leitura é que o problema não está nos modelos em si, mas no limbo entre eles.

O dilema do meio-termo

De um lado, estão os defensores do trabalho presencial. Em uma conferência recente, Meg Whitman, ex-CEO da HP e do eBay, afirmou que, se estivesse no comando de uma empresa hoje, “forçaria as pessoas a voltar ao escritório”. Para ela, a flexibilidade excessiva enfraquece a comunicação, a mentoria e o aprendizado por osmose, que acontecem naturalmente no ambiente físico. Em um cenário de mudanças aceleradas, a comunicação frequente e direta seria insubstituível.

Do outro lado, Job van der Voort, CEO da plataforma de contratações globais Remote, argumenta que os escritórios não são inerentemente mais eficazes, apenas mais familiares. As organizações passaram décadas construindo processos em torno deles. O trabalho remoto, em contrapartida, exige a criação deliberada de sistemas para comunicação e gestão. Nessa perspectiva, o atrito do híbrido surge justamente da tentativa de conciliar duas lógicas operacionais distintas.

Compromisso ou ferramenta

O estudo da Robin sugere que as empresas podem estar pagando caro por não se comprometerem com um único modelo. Tentar operar nos dois mundos simultaneamente, sem as ferramentas adequadas, gera uma sobrecarga logística que nem o modelo 100% presencial nem o 100% remoto enfrentam da mesma forma. O caminho, portanto, parece ser duplo: ou a organização escolhe um lado e se reestrutura em torno dele, ou investe pesadamente em tecnologia para mitigar a fricção do híbrido.

Van der Voort, um proponente do modelo totalmente distribuído, aponta vantagens adicionais. Ele defende que o trabalho remoto nivela o campo de jogo para pais, mães e mulheres, além de forçar uma gestão baseada em resultados, e não em percepções subjetivas de presença. Sem poder observar quem fica até mais tarde, os gestores são obrigados a articular com mais clareza as expectativas de entrega, o que qualifica o feedback.

O “imposto do híbrido”, portanto, parece ser menos um problema de localização e mais uma questão de design organizacional. A pergunta para as empresas não é mais onde se trabalha, mas como o trabalho é estruturado para fluir. A resposta, ao que tudo indica, não será única nem barata.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune