Estrelas-do-mar, escorpiões, andorinhas. Uma vez que se começa a procurar, os animais estão por toda parte na pintura surrealista. A onipresença desse bestiário é o ponto de partida de The Surrealist Menagerie, livro póstumo do zoólogo e também artista surrealista Desmond Morris. A obra deixa no ar uma questão fundamental: por que os exploradores da psique humana recorreram tão insistentemente ao reino animal?
O espelho animal
A resposta não é única. Morris, que dedicou a vida a demonstrar as semelhanças entre humanos e outros animais, aqui se recusa a tirar conclusões fáceis. No entanto, o contexto histórico oferece pistas. Como aponta uma reportagem da ARTnews sobre o livro, a influência de Darwin já havia dissolvido as fronteiras rígidas entre as espécies. Freud, por sua vez, teorizava sobre uma evolução psíquica com raízes primitivas. Nesse caldo cultural, o animal se tornou um veículo: um modelo de liberdade contra as convenções burguesas e um portal para o inconsciente.
Totem ou parente?
A abordagem, contudo, variava drasticamente. Artistas como Max Ernst usavam pássaros como avatares totêmicos, uma projeção do próprio eu. Salvador Dalí, figura dominante no livro de Morris, explorava a estranheza das formas animais. Já nas mãos das mulheres, a relação se aprofundava. Artistas como Frida Kahlo — que se pintou como um cervo ferido — e Leonor Fini não se apropriavam dos animais, mas buscavam uma identificação híbrida. A solidariedade entre espécies se tornava uma forma de resistência.
É na obra de Leonora Carrington que essa visão atinge seu ápice. Em suas telas e escritos, a aliança com hienas, cavalos e outros seres não busca apenas a autorrevelação. Projeta um mundo novo, pós-humano, onde o parentesco entre espécies seria, talvez, “uma melhoria para a humanidade”. Uma utopia que o surrealismo deixou como herança.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





