A arquiteta e artista sudanesa Ola Hassanain, radicada na Holanda, prepara uma reflexão crítica sobre a gestão de recursos hídricos que será apresentada na próxima Bienal de Arquitetura Pan-Africana, em Nairóbi, em 2026. O trabalho foca na intersecção entre o ambiente construído e a água, desafiando a lógica de dominação que historicamente pauta o urbanismo moderno.

Segundo reportagem do ArchDaily, a obra de Hassanain articula as experiências distintas do Sudão, da Holanda e do Quênia como laboratórios para entender a relação humana com rios e mares. A tese central é que a arquitetura, frequentemente, opera sob uma ótica extrativista, tratando a água como um recurso a ser contido ou explorado, em vez de um elemento integrado ao ecossistema urbano.

A falha estrutural do controle hídrico

A história da arquitetura é marcada pelo esforço de moldar a natureza para atender às necessidades humanas de expansão e segurança. No entanto, Hassanain argumenta que essa tentativa de controle absoluto ignora a natureza amorfa e dinâmica dos corpos hídricos. Quando o design urbano ignora a fluidez das águas, o resultado costuma ser o desastre, seja por inundações, erosão ou colapso da infraestrutura de saneamento.

O trabalho da arquiteta sugere que a fragilidade operacional das cidades modernas deriva justamente desse excesso de confiança na engenharia rígida. Em locais onde a água foi sistematicamente canalizada ou contida, o ecossistema perde sua capacidade de autorregulação, tornando as áreas urbanas vulneráveis a eventos climáticos extremos que a infraestrutura, desenhada para um cenário estático, não consegue mais mitigar.

Mecanismos de extração versus reparação

A lógica predominante na construção civil global ainda privilegia o lucro imediato através da extração de recursos. Ao tratar rios como meros canais de drenagem ou fontes de energia, a arquitetura negligencia a função social e ecológica da água. O conceito de "ecologias de reparo" proposto por Hassanain busca inverter essa dinâmica, incentivando projetos que permitam a convivência, em vez da submissão forçada.

Na prática, isso exigiria que arquitetos e urbanistas adotassem soluções baseadas na natureza, como áreas de inundação controlada e superfícies permeáveis, que funcionam como amortecedores naturais. A transição para esse modelo depende de uma mudança de incentivos, onde a resiliência a longo prazo seja valorizada acima da eficiência espacial imediata, forçando uma revisão profunda dos códigos de obra atuais.

Implicações para o planejamento urbano

Para reguladores e gestores públicos, o desafio reside em integrar a incerteza climática ao planejamento de longo prazo. A visão de Hassanain sugere que cidades como Nairóbi, que enfrentam pressões de urbanização acelerada, podem servir como modelos de adaptação, desde que o design urbano priorize a resiliência em detrimento da expansão desenfreada sobre leitos de rios.

A tensão entre o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental é o ponto de fricção que definirá a arquitetura das próximas décadas. No Brasil, onde o manejo de bacias hidrográficas em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro permanece um desafio crítico, a abordagem que propõe a "escuta" do território em vez da sua imposição técnica oferece um contraponto necessário ao urbanismo tradicional.

O futuro das cidades resilientes

Permanece em aberto a questão de como as instituições financeiras e o setor de incorporação imobiliária reagirão a exigências de design que, teoricamente, reduzem a área útil disponível para construção em prol da segurança hídrica. A transição para uma arquitetura de reparo exige um consenso social sobre o valor real da infraestrutura natural.

Observar como a Bienal de Nairóbi traduzirá esses conceitos teóricos em propostas práticas será fundamental para entender a viabilidade dessa mudança de paradigma. A arquitetura, ao que tudo indica, precisará aprender a dialogar com as forças que tentou, por séculos, silenciar.

O trabalho de Hassanain convida a uma reflexão sobre se estamos prontos para projetar cidades que aceitam a água como uma força parceira, ou se continuaremos a construir sobre o risco de uma falha iminente. A resposta, ao que parece, está na disposição em reavaliar o que consideramos como sucesso no ambiente construído.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ArchDaily