Cento e onze obras de arte do acervo do Centro de Arte Indígena (IAC) do Canadá continuam desaparecidas, quase dois anos após uma auditoria interna ter identificado 132 peças sem localização. O caso, reportado originalmente pela Canadian Press e detalhado pela publicação ARTnews, lança uma sombra sobre a capacidade do governo canadense de zelar por um de seus mais importantes tesouros culturais.
O IAC, que opera sob o guarda-chuva do departamento federal de Relações Coroa-Indígenas (CIRNAC), possui uma coleção de aproximadamente 5.000 obras de artistas das Primeiras Nações, Métis e Inuit. Enquanto o governo classifica o problema como uma falha de registro e não necessariamente como perda ou roubo, o episódio expõe uma vulnerabilidade crítica na gestão de patrimônio, especialmente o de comunidades historicamente marginalizadas.
O peso de um acervo
A coleção, avaliada em C$14,4 milhões (cerca de R$ 57 milhões), tem um valor que transcende o monetário. Iniciada em 1965, ela representa um registro vital da expressão cultural e da história indígena contemporânea no Canadá. A auditoria apontou que uma mudança do acervo para instalações de armazenamento temporárias em 2022 aumentou o “risco de roubo e violações de segurança”, um ponto de falha comum na logística de museus e coleções.
A resposta oficial tem sido cautelosa. Um porta-voz do CIRNAC afirmou que a designação de uma obra como “não localizada” indica a necessidade de reconciliar registros, e não sua perda definitiva. Desde a auditoria, 17 obras foram encontradas. Ainda assim, a lentidão do processo alimenta o ceticismo e ecoa desafios enfrentados por instituições em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde a burocracia e a falta de recursos frequentemente colocam o patrimônio em risco.
A reação da comunidade artística foi contundente. O artista Lawrence Paul Yuxweluptun, cuja obra integra a coleção, descreveu o episódio como “incompetência do governo” e chegou a sugerir o fechamento do IAC, com a transferência do acervo para instituições mais capazes. A sua fala captura a tensão central do caso: para o Estado, trata-se de um lapso administrativo a ser corrigido; para os artistas e suas comunidades, é uma quebra de confiança e um desrespeito a um legado vivo. A questão que fica é se as prometidas melhorias na gestão serão suficientes para restaurar a credibilidade da instituição.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





