Desde que iniciou suas operações, o Telescópio Espacial James Webb (JWST) tem gerado mais perguntas do que respostas. Uma das mais intrigantes foi a detecção de uma série de “pontos vermelhos” — objetos tão massivos e compactos que sua existência, nos primórdios do universo, parecia desafiar o modelo cosmológico padrão. Hipóteses exóticas foram aventadas, mas nenhuma se encaixava perfeitamente.

Agora, uma explicação mais sóbria, porém computacionalmente monumental, surge de uma colaboração envolvendo o Instituto Max Planck de Astrofísica. Segundo reportagem do site Xataka, a simulação mais detalhada já realizada sobre o universo primitivo, processada no supercomputador japonês ATERUI III, oferece uma solução elegante: os pontos vermelhos são, muito provavelmente, buracos negros em pleno crescimento explosivo.

Uma semente supermassiva

A simulação recria as condições extremas logo após o Big Bang. Naquele ambiente, a intensa radiação ultravioleta teria impedido que nuvens de gás se fragmentassem para formar múltiplas estrelas pequenas, como ocorre hoje. Em vez disso, o gás teria colapsado para dar origem a uma única estrela supermassiva. O destino dessa estrela era inevitável: colapsar sobre si mesma, formando uma “semente de buraco negro”.

O ponto-chave do novo modelo é o que acontece a seguir. Essa semente estaria envolta por um disco de gás denso que funcionava como um escudo, aprisionando a radiação. Isso permitiu que o buraco negro se alimentasse do gás circundante de forma muito mais rápida do que se pensava ser possível, um processo de “hiper-acréscimo” que explica sua massa descomunal em tão pouco tempo cósmico.

O desvio para o vermelho

A cor avermelhada dos objetos, que já era parcialmente compreendida, ganha um contexto mais claro. O fenômeno se deve a uma combinação de dois fatores. O primeiro é o desvio para o vermelho cosmológico: à medida que o universo se expande, a luz que viaja por bilhões de anos é “esticada”, deslocando-se para comprimentos de onda mais longos e avermelhados. O segundo é a própria nuvem de gás ao redor do buraco negro, que absorve a luz azul e deixa passar a vermelha.

A maior implicação deste trabalho é resolver um paradoxo antigo da astronomia: como buracos negros supermassivos, como os que habitam o centro da maioria das galáxias, puderam se formar tão cedo. Os pontos vermelhos do Webb seriam o flagrante dessa fase de crescimento acelerado, o elo perdido entre as primeiras estrelas e os gigantes cósmicos que vemos hoje.

Embora esta seja a hipótese mais robusta até o momento, a investigação está longe de terminar. O que a nova simulação oferece não é uma certeza absoluta, mas um roteiro muito mais plausível para interpretar as futuras observações do James Webb, demonstrando a sinergia poderosa entre a observação astronômica e o poder de processamento computacional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka