O Ozempic e medicamentos similares da classe dos agonistas do receptor GLP-1, como o Wegovy, conquistaram popularidade global por sua eficácia no controle da diabetes tipo 2 e, notavelmente, por promoverem a perda de peso. Contudo, o uso disseminado destes fármacos tem trazido à tona preocupações sobre potenciais efeitos colaterais. Nos Estados Unidos, um número crescente de pacientes está processando as farmacêuticas responsáveis, como Novo Nordisk e Eli Lilly, alegando perda de visão associada ao uso de semaglutida, o princípio ativo do Ozempic.

O problema ocular em questão é a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIANA), uma condição que causa a interrupção do fluxo sanguíneo para o nervio óptico, resultando em perda súbita de visão, geralmente sem dor. Essa patologia é mais comum em idosos e em indivíduos com diabetes preexistente, o que levanta dúvidas sobre se o fármaco é o causador direto ou se a doença de base agrava o quadro. A gravidade reside no fato de que, em muitos casos, não há tratamento eficaz para recuperar a visão perdida, tornando-a permanente.

Investigação científica e alertas regulatórios

A primeira voz de alarme surgiu em 2024, com um estudo observacional que sugeriu um risco quatro vezes maior de desenvolver NOIANA em pacientes que utilizavam semaglutida em comparação com outros tratamentos para diabetes. Embora o desenho do estudo não permitisse conclusões definitivas, ele abriu caminho para investigações mais aprofundadas. Posteriormente, uma meta-análise de 15 estudos longitudinais, abrangendo 1,5 milhão de pacientes, reforçou a associação entre o uso de GLP-1 e um maior risco de NOIANA. Um estudo publicado no British Journal of Ophthalmology indicou ainda que o risco pode estar relacionado à dose, com a semaglutida oral não apresentando o mesmo aumento de risco.

Diante dessas evidências, as agências reguladoras adotaram posturas distintas. Na Europa, desde junho de 2025, a NOIANA é categorizada como um efeito adverso "muito raro" no prospecto da semaglutida, afetando até 1 em cada 10.000 pessoas. Nos Estados Unidos, a FDA optou por manter uma avaliação em andamento através de sua rede de farmacovigilância, sem impor alterações imediatas na rotulagem dos medicamentos quanto a este risco específico.

Implicações e processos judiciais

A ausência de um aviso explícito sobre o risco de NOIANA na rotulagem norte-americana tem sido o principal argumento nas dezenas de processos movidos contra as farmacêuticas. Pacientes e seus representantes legais argumentam que não foram devidamente informados sobre os potenciais perigos visuais associados ao uso do Ozempic. Em resposta, as empresas farmacêuticas afirmam que "se os dados de segurança emergentes justificarem medidas adicionais, serão implementadas as medidas apropriadas de acordo com os requisitos regulatórios".

O 'boom' recente e a cautela necessária

O sucesso estrondoso de medicamentos como Ozempic e Wegovy, muitas vezes vistos como "soluções milagrosas" para o controle de peso, não deve obscurecer o fato de que são fármacos sujeitos a efeitos adversos ainda em investigação. O "boom" destes medicamentos é relativamente recente, e a pesquisa sobre seus impactos a longo prazo, incluindo os oftalmológicos, está em andamento. Este cenário serve como um lembrete crucial sobre a importância de adquirir medicamentos apenas através de canais de saúde oficiais e regulamentados, evitando a compra em sites não confiáveis que não garantem a procedência e segurança dos produtos.

Perguntas em aberto

Ainda paira a incerteza sobre a extensão exata da relação causal entre a semaglutida e a NOIANA. A dose terapêutica ideal que minimiza riscos oculares, mas mantém benefícios metabólicos, ainda é um campo para estudos futuros. A investigação da FDA nos EUA, assim como o acompanhamento contínuo na Europa, será fundamental para determinar se serão necessárias mudanças mais drásticas nas recomendações de uso ou na rotulagem dos medicamentos.

A comunidade médica e os pacientes aguardam desfechos mais claros sobre a segurança visual associada a estes populares tratamentos. A balança entre os benefícios terapêuticos e os riscos potenciais continuará a ser um ponto central de debate e investigação científica nos próximos anos. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka