A inteligência artificial (IA) avança rapidamente em diversos setores, prometendo eficiência e redução de custos. No entanto, para pacientes que enfrentam doenças crônicas e complexas, a substituição de atendentes humanos por sistemas automatizados pode representar um perigo iminente, retirando a última linha de defesa em um sistema já desafiador.

Jonathan Gluck, diagnosticado com mieloma múltiplo há 22 anos, compartilha sua jornada de mais de duas décadas lidando com planos de saúde. Durante esse período, ele passou por inúmeras terapias, internações e um volume massivo de sinistros. Sua experiência o leva a um apelo urgente às lideranças das seguradoras: parem de implementar agentes de IA no atendimento ao cliente. Para Gluck, a interação com sistemas automatizados é, na melhor das hipóteses, fria e sem alma; na pior, pode ser exasperante e prejudicial, especialmente quando problemas surgem e o agente de IA não compreende a complexidade da situação.

A Fricção da Pré-autorização

Gluck relata um episódio marcante em 2003, quando sua seguradora, a Oxford, recusou o pagamento de um PET scan, um exame considerado crucial para o diagnóstico e acompanhamento de seu mieloma múltiplo. A lógica da seguradora era que, sem evidências conclusivas de outros exames, o diagnóstico não estava confirmado, tornando o PET scan desnecessário. Essa negativa foi apenas o início de uma longa batalha contra o sistema de pré-autorização das seguradoras. O processo, que deveria garantir que tratamentos e exames sejam clinicamente necessários e controlar custos, muitas vezes se torna um obstáculo burocrático que atrasa ou impede o acesso do paciente aos cuidados de que necessita.

O autor descreve o processo como "kafkiano", onde o consultório médico precisa convencer a seguradora da necessidade do procedimento. Isso envolve o envio de cartas, laudos e registros médicos, um trâmite que pode levar dias ou semanas. Falhas na comunicação, esquecimentos ou argumentos insuficientes por parte do médico, lentidão na resposta da seguradora – tudo isso, mesmo com interações humanas, já gera estresse e atrasos consideráveis. O ônus final, muitas vezes, recai sobre o paciente, que precisa ligar repetidamente para médicos e seguradoras, passar horas em espera e, frequentemente, ser direcionado a departamentos incorretos, lidando com profissionais que não sabem explicar o motivo de uma negativa.

O Risco da Desumanização com IA

Ao introduzir agentes de IA, o risco é que essa fricção se intensifique e a pouca humanidade restante no processo seja eliminada. Em situações de saúde delicadas, onde o paciente já está física e emocionalmente fragilizado, a falta de empatia e compreensão de um sistema automatizado pode ser devastadora. Um erro de interpretação por parte da IA, uma falha em reconhecer a urgência ou a gravidade da situação, pode ter consequências diretas na saúde e bem-estar do indivíduo. A IA, por mais avançada que seja, carece da capacidade de nuance, compaixão e julgamento crítico que um ser humano pode oferecer em momentos de crise.

Gluck argumenta que, quando algo dá errado em uma interação com uma seguradora, especialmente em questões de saúde, a frustração com um agente de IA vai além do incômodo. É a remoção do último ponto de contato humano, um canal para negociação, esclarecimento e, fundamentalmente, para a garantia de que o paciente está recebendo o tratamento adequado e necessário. Ele teme que a busca por eficiência e lucro através da IA possa levar à desumanização completa do atendimento, deixando pacientes vulneráveis sem um recurso vital.

Implicações para o Sistema de Saúde

A adoção generalizada de IA no atendimento ao cliente de planos de saúde levanta questões importantes sobre o futuro da relação entre pacientes e provedores. Embora a IA possa otimizar tarefas administrativas e responder a perguntas frequentes, ela não está equipada para lidar com a complexidade emocional e as nuances médicas que frequentemente surgem em sinistros de saúde. A dependência excessiva de sistemas automatizados pode criar novas barreiras de acesso, exacerbar desigualdades e, em última instância, comprometer a qualidade do cuidado ao paciente. A eficiência prometida pela tecnologia pode vir ao custo da empatia e do cuidado humano, elementos essenciais em momentos de fragilidade.

O apelo de Gluck não é uma rejeição à tecnologia, mas um alerta sobre a aplicação inadequada de IA em um contexto onde a sensibilidade humana é primordial. A busca por otimização não deve jamais sobrepor-se à dignidade e ao bem-estar do paciente. A questão central que permanece é: a que custo estamos buscando a eficiência, e quem arcará com as consequências quando a tecnologia falhar em demonstrar a humanidade necessária?

Source · Fast Company