O Consell de Mallorca, na Espanha, deu início a um projeto de infraestrutura que, à primeira vista, parece estritamente local: a ampliação de uma rotatória no polo industrial de Son Castelló, em Palma. Com um investimento de €3,7 milhões e prazo de um ano, a obra visa desafogar um ponto nevrálgico por onde circulam mais de 46 mil veículos por dia, segundo reportagem da Forbes España.
O movimento, contudo, é um microcosmo de um dilema que assombra gestores urbanos em todo o mundo, inclusive no Brasil. A intervenção em Palma não é apenas sobre concreto e fluxo de veículos; é uma aposta em um modelo de mobilidade que prioriza a capacidade viária como solução para o congestionamento. A questão que se impõe é se a resposta para o excesso de carros é, de fato, mais espaço para eles.
O cálculo por trás do concreto
A lógica do projeto é puramente matemática. A rotatória atual, com 55 metros de diâmetro, tornou-se insuficiente para o volume de tráfego, gerando retenções constantes. A nova estrutura, com 85 metros e a adição de vias de acesso direto, foi projetada para aumentar a vazão e eliminar o gargalo. É uma solução de engenharia clássica, focada em otimizar a infraestrutura existente para a demanda atual.
Esse tipo de obra é politicamente atraente por oferecer uma resposta tangível e visível a uma queixa popular. Para os milhares de motoristas que perdem tempo no trânsito diário, a promessa de fluidez é uma vitória concreta. O projeto reflete uma abordagem pragmática para um problema imediato, mas que deixa em segundo plano a discussão sobre as causas estruturais da congestão: a crescente dependência do transporte individual e o modelo de desenvolvimento urbano que o incentiva.
A armadilha da demanda induzida
O principal risco de estratégias como a de Palma é um fenômeno bem documentado no urbanismo: a demanda induzida. Ao criar mais espaço para os carros, a nova via mais eficiente pode, paradoxalmente, incentivar mais pessoas a dirigir, atraindo viagens que antes eram feitas por outros meios ou em outros horários. Em pouco tempo, a nova capacidade é preenchida, e o congestionamento retorna, por vezes pior do que antes.
A obra em Son Castelló prevê a preparação do terreno para um futuro "vial cívico", mas o investimento principal e imediato é na capacidade automotiva. Uma abordagem verdadeiramente integrada consideraria, com o mesmo peso e urgência, a melhoria do transporte público, a criação de ciclovias seguras e políticas de gestão de demanda, como pedágios urbanos ou restrições de circulação, que desestimulem o uso do carro.
O projeto trará, sem dúvida, um alívio a curto prazo para a região. Contudo, ele cristaliza uma escolha sobre o futuro da mobilidade na ilha. Ao atacar o sintoma com mais asfalto, Palma talvez esteja apenas adiando uma conversa mais difícil e necessária sobre o modelo de cidade que deseja construir para as próximas décadas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





