O principal índice da bolsa de Madri, o Ibex 35, fechou esta quinta-feira com uma alta de 1,12%, recuperando o nível psicológico de 20 mil pontos. O movimento, que levou o índice aos 20.000,2 pontos, ocorre em um cenário que, em tese, deveria assustar os investidores: uma escalada de tensões no Oriente Médio que empurrou o preço do petróleo Brent para perto de US$ 97 o barril.

O paradoxo define o humor do mercado. Enquanto Estados Unidos e Irã trocam ataques e ameaças no Estreito de Ormuz, uma artéria vital para o fornecimento global de energia, a bolsa espanhola registrou um de seus melhores desempenhos na Europa. A leitura, aqui, é que os investidores estão momentaneamente compartimentando os riscos, focando em fatores domésticos em detrimento do ruído geopolítico — uma aposta que pode se provar arriscada.

O risco que o mercado ignora

A situação no Oriente Médio, conforme detalhado em reportagem da Forbes Espanha, é tudo menos trivial. O governo americano confirmou novos ataques a instalações militares iranianas, enquanto Teerã prometeu uma resposta “agressivamente desestabilizadora”. Analistas do Bankinter, citados na reportagem, alertam que o encarecimento da energia complica as perspectivas de inflação e juros, um cenário classicamente negativo para ações.

A alta do petróleo, com o Brent subindo mais de 1,3%, é a tradução financeira direta desse risco. Cada dólar a mais no preço do barril representa um imposto sobre a economia global, com potencial para corroer margens corporativas e o poder de compra do consumidor. Ainda assim, não só o Ibex 35, mas também outros pregões europeus fecharam no azul, ainda que de forma mais modesta, sugerindo uma tolerância ao risco que destoa da gravidade das manchetes.

Onde os investidores estão focando

Se o mercado global parece perigoso, o que explica a alta em Madri? A resposta parece estar nos papéis que lideraram o avanço. Entre as maiores altas do dia estiveram a siderúrgica Acerinox (+2,84%), a construtora Sacyr (+2,4%) e os bancos Caixabank (+2,35%) e Bankinter (+2,27%). Essa composição sugere que o capital está fluindo para setores cíclicos e financeiros, que se beneficiariam de uma economia doméstica resiliente e, ironicamente, de um ambiente de juros mais altos que a inflação do petróleo poderia acarretar.

O apetite por ativos espanhóis também foi visto no mercado de dívida. O Tesouro do país realizou uma emissão de € 6,2 bilhões em títulos, com forte demanda, apesar de ter de oferecer rentabilidades mais altas. Para os investidores, a mensagem pode ser a de que a economia local, cuja atividade do setor privado na zona do euro se manteve estável, oferece um porto mais seguro do que a volatilidade do cenário internacional.

A questão que permanece é a sustentabilidade dessa divergência. A resiliência do mercado de ações espanhol frente a um choque energético e geopolítico é notável, mas frágil. A aposta dos investidores parece ser a de que o conflito será contido e seus efeitos, limitados. É uma leitura otimista, que será testada a cada novo barril de petróleo negociado e a cada novo comunicado emitido de Washington ou Teerã.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España