Um ex-engenheiro da Philips, Chih-Yee Jen, de 71 anos, foi condenado pela justiça americana por roubar segredos industriais de tecnologia de raios-X e entregá-los a um concorrente chinês. O veredito, segundo reportagem do The Register, é o clímax de uma trama que começou em 2017, quando a Philips anunciou o fechamento de sua fábrica em Aurora, Illinois, afetando cerca de 200 funcionários.

O caso é um estudo sobre como reestruturações corporativas podem criar a tempestade perfeita para a espionagem industrial. A decisão de fechar a unidade transformou uma equipe de especialistas em um alvo para competidores. Jen, com profundo conhecimento dos tubos de raios-X da marca Dunlee, tornou-se a ponte para a transferência de conhecimento estratégico.

Do crachá ao banco dos réus

A abordagem da empresa chinesa Kunshan GuoLi Electronic Technology foi cirúrgica. As conversas com Jen começaram em agosto de 2017, meses antes de sua saída oficial da Philips. Ao deixar a companhia em dezembro, ele já tinha um novo destino: uma subsidiária da Kunshan GuoLi, convenientemente estabelecida na mesma cidade de Aurora, para a qual passou a desenvolver produtos usando a tecnologia roubada.

A acusação detalha o roubo de protocolos de produção, especificações de componentes e processos de montagem — o "know-how" que representa a verdadeira vantagem competitiva. O crime não foi um ato isolado. Jen ajudou a recrutar outros dois engenheiros da Philips, que se declararam culpados antes do julgamento, indicando um esforço coordenado para replicar não apenas um produto, mas a capacidade intelectual de uma equipe.

Geopolítica no chão de fábrica

O episódio transcende a disputa entre duas empresas. A procuradoria americana enquadrou o roubo como um "crime econômico grave que prejudica empregos americanos e reprime a pesquisa e o desenvolvimento". A declaração eleva o caso de uma briga por patentes para uma questão de segurança econômica nacional, refletindo a crescente tensão geopolítica entre EUA e China no campo tecnológico.

Para companhias com P&D sensível, a lição é clara. Contratos de confidencialidade e propriedade intelectual, que a Philips possuía, são uma defesa necessária, mas insuficiente. A vulnerabilidade real reside no fator humano, especialmente durante transições traumáticas como o fechamento de uma operação. O caso serve de alerta para o ecossistema de tecnologia, inclusive no Brasil: a gestão do capital humano em momentos de crise é, também, uma questão de segurança estratégica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register