A casa de leilões Phillips anunciou nesta terça-feira um faturamento de US$ 507 milhões em sua temporada de primavera de 2026, representando um aumento de 60% em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado, um dos mais expressivos da história recente da companhia, foi sustentado por uma demanda robusta por itens de alto valor e por um desempenho recorde no segmento de relógios, que movimentou US$ 235,5 milhões, quase metade do volume total de vendas da casa.

Segundo a empresa, o sucesso reflete não apenas a vitalidade do mercado de luxo, mas também a eficiência operacional alcançada ao longo do último ano. A Phillips reportou um aumento de 55% no valor médio dos lotes vendidos, mantendo uma taxa de sucesso de 90% por lote. A performance foi corroborada por dados de liquidez: as vendas noturnas atingiram uma taxa de sucesso de 94% por lote e 99% por valor, com o índice de preço final em relação à estimativa mínima atingindo 165%.

A centralidade do mercado de relógios

O segmento de relógios deixou de ser uma categoria periférica para se tornar o motor de tração da Phillips. A casa destacou que o leilão realizado em Genebra foi o mais bem-sucedido de sua história, enquanto as praças de Nova York e Hong Kong também registraram recordes regionais. A raridade e a procedência das peças foram fatores decisivos, exemplificados pela venda do F.P. Journe Chronomètre à Résonance “Souscription No. 007” por US$ 13,9 milhões em Nova York e de um Patek Philippe Ref. 2499 por US$ 10,3 milhões em Hong Kong.

Vale notar que a Phillips tem conseguido capitalizar sobre a seletividade crescente dos colecionadores. Enquanto o mercado de arte mais amplo demonstra cautela, focando em obras de qualidade museológica, o setor de relógios raros continua a atrair lances agressivos. Essa dinâmica sugere que, para investidores de alto patrimônio, relógios de coleção funcionam como ativos de reserva de valor com maior previsibilidade de mercado do que certas categorias de arte contemporânea.

Mecanismos de crescimento e perfil do comprador

O crescimento da Phillips também está atrelado a uma mudança na demografia de seus clientes. A casa informou que compradores de primeira viagem representaram 40% das aquisições na temporada, um avanço em relação aos 36% observados no ano anterior. Mais relevante ainda é a ascensão de Millennials e colecionadores da Geração Z, que agora compõem um terço do total de licitantes e compradores, superando os 25% registrados no mesmo período de 2025.

A digitalização do processo de leilão atua como um facilitador crítico dessa transição. Quase 70% das obras foram vendidas online, um aumento frente aos 62% da primavera de 2025. Esse comportamento indica que a barreira de entrada para o mercado de luxo está sendo reduzida pela tecnologia, permitindo que a Phillips alcance uma base global de participantes sem a necessidade de presença física constante nos salões de leilão.

Tensões e o futuro das casas de leilão

Embora os números sejam positivos, o mercado de leilões enfrenta um cenário de maior seletividade. A Phillips conseguiu navegar esse ambiente ao focar em consignações de prestígio, como a coleção do embaixador John L. Loeb Jr. e bens do espólio de Tina Hills. Contudo, a dependência de lotes de alto valor levanta questões sobre a sustentabilidade do crescimento caso o fornecimento de peças de qualidade excepcional sofra retração no médio prazo.

A concorrência com gigantes como Sotheby’s e Christie’s permanece acirrada. Para a Phillips, o desafio reside em manter a taxa de sucesso de 90% à medida que tenta escalar o volume de vendas. A capacidade de atrair novos colecionadores é um diferencial competitivo, mas a retenção desse público dependerá da oferta contínua de itens que justifiquem o investimento em um cenário econômico global que, embora resiliente no setor de luxo, exige cautela.

O que observar nos próximos trimestres

A sustentação desse ritmo de crescimento dependerá da capacidade da Phillips em manter a relevância de seus leilões temáticos de relógios em um mercado que começa a mostrar sinais de saturação em categorias de menor valor. A observação de como a casa gerenciará a transição entre coleções de espólios históricos e novas aquisições será fundamental para entender se o fôlego atual é estrutural ou sazonal.

Com a digitalização consolidada, resta saber se a experiência de leilão online continuará a atrair o mesmo nível de capital, ou se a necessidade de validação física de peças de altíssimo valor forçará uma mudança na estratégia de vendas nos próximos anos. O mercado de arte e luxo observará de perto se os recordes de 2026 serão replicados ou se o setor entrará em uma fase de consolidação mais conservadora.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews