O recente relatório do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) de 2022 gerou alarme global ao revelar os piores resultados médios da história em leitura, matemática e ciências, tanto na OCDE quanto na Espanha. Um dos pontos mais comentados foi o aparente declínio acentuado entre estudantes de famílias abastadas, levando a interpretações de que a desigualdade educacional estaria se estreitando devido à queda dos mais favorecidos, e não à melhora dos menos favorecidos. Na Espanha, o quartil socioeconômico mais alto perdeu 33 pontos em leitura e 24 em matemática, o dobro do quartil mais baixo, um dado que alimentou discussões sobre o papel da tecnologia e do tempo de tela no desempenho acadêmico. Abelardo de la Rosa, secretário de Estado de Educação, chegou a apontar as telas como um dos principais vilões.

Contudo, uma análise mais aprofundada dos microdados do PISA por uma equipe de EsadeEcPol, Innovamat Research Lab e o Banco Mundial lança uma nova luz sobre esses resultados. O estudo levanta a hipótese de que parte dessa aparente queda entre os alunos de famílias ricas pode ser um artefato da metodologia utilizada pela OCDE. Para o PISA 2022, a organização alterou significativamente os critérios para definir o nível socioeconômico dos estudantes, removendo 11 itens relacionados à escolaridade dos pais, ocupação e posses domésticas (como livros em casa) e introduzindo outros mais focados na realidade de cada país.

Mudança de métrica, mudança de cenário

A substituição de itens no questionário socioeconômico do PISA é o cerne da nova análise. Em 2022, a OCDE removeu perguntas sobre a quantidade de livros em casa, que apresentavam uma correlação média de 0,201 com as notas de matemática. Foram adicionados, em contrapartida, itens como a posse de piscina, alarme, quartos de hóspedes ou sistema de segurança, que no caso espanhol apresentaram uma correlação significativamente menor, de apenas 0,052. Mais surpreendente ainda é que alguns desses novos indicadores, como ter um tablet próprio ou uma piscina, correlacionaram-se negativamente com o desempenho acadêmico. Isso sugere que a definição de 'aluno com vantagens' em 2022 se baseou mais em capital de consumo do que em capital cultural, como ocorria em edições anteriores. Embora a nova métrica possa ser mais representativa da realidade das classes altas em certos países, ela compromete a comparabilidade direta entre os resultados de 2022 e anos anteriores.

O impacto na desigualdade e as receitas para o futuro

Se a hipótese da alteração metodológica se confirmar, as implicações são significativas. A percepção de um aumento drástico da desigualdade, impulsionado pela tecnologia, pode ser exagerada. Isso não significa que os resultados do PISA não sejam ruins — a queda é generalizada e preocupante —, mas sim que as causas e, consequentemente, as soluções podem ser diferentes das inicialmente propostas. A ênfase em combater o uso excessivo de telas, por exemplo, pode perder força se a principal variável explicativa for a mudança na forma de medir o status socioeconômico.

O que os dados realmente nos dizem?

A má notícia, portanto, não desaparece: o desempenho educacional geral caiu. A questão crucial agora é entender os motivos subjacentes a essa queda generalizada, que não parecem ser puramente tecnológicos. A análise sugere que a OCDE pode ter inadvertidamente obscurecido a verdadeira natureza da desigualdade educacional ao modificar suas ferramentas de medição. A falta de clareza sobre as causas reais nos impede de formular políticas públicas eficazes.

Perguntas em aberto e o caminho a seguir

O principal desafio reside em desvendar as verdadeiras razões por trás da queda nos resultados do PISA. A análise metodológica levanta a possibilidade de que a comparação direta entre os relatórios de 2022 e anteriores seja falha. Isso abre um leque de perguntas: quais outros fatores, além da tecnologia, podem ter contribuído para essa queda generalizada? Como a OCDE pretende garantir a comparabilidade e a validade de seus dados em futuras avaliações? A comunidade educacional precisa de dados claros e confiáveis para orientar ações, e a atual incerteza metodológica dificulta esse processo.

A análise sugere que a queda nos resultados do PISA entre alunos de famílias ricas pode não ser tão acentuada quanto os dados iniciais indicavam, devido a uma mudança na metodologia de medição do status socioeconômico. A questão que permanece é a real causa da queda generalizada no desempenho educacional, um mistério que exige investigação aprofundada para evitar decisões às cegas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka