A madrugada em Madrid foi marcada pelo desalojamento da acampada na Puerta del Sol, que se estendeu por 38 dias. A operação, conduzida por 220 policiais nacionais e 180 municipais, resultou na remoção de 334 pessoas e na detenção de duas por desobediência e resistência, segundo a Delegación del Gobierno. Fontes policiais, no entanto, indicam cerca de 200 identificações. A ação, que contou com a participação de bombeiros e serviços sociais, também envolveu a retirada e apreensão das tendas por parte dos serviços de limpeza do Ayuntamiento.

Dois Relatos em Conflito

A narrativa sobre o desalojamento diverge significativamente. Enquanto a conta oficial da acampada denuncia uma intervenção violenta, com relatos de golpes e uso de gás pimenta, a Delegación del Gobierno sustenta que a operação transcorreu sem violência, e a própria polícia afirma que a maioria dos ocupantes deixou o local voluntariamente. A ausência de câmeras de segurança transmitindo imagens da praça durante a operação, após as câmeras terem sido desligadas no primeiro dia da acampada sob a justificativa de problemas técnicos, alimentou as dúvidas e a falta de um registro visual independente para corroborar os fatos.

Um Mês de Desgaste e Divergências

Iniciada em 26 de setembro em protesto contra o despejo de Maricarmen, uma senhora de 87 anos, a acampada chegou a reunir mais de 40 coletivos. Contudo, a adesão e o número de barracas foram sempre objeto de controvérsia, com estimativas que variavam de 500 a quase 1.800 tendas, enquanto sindicatos policiais apontavam muitas delas como vazias. A saída do Sindicato de Inquilinas em 2 de outubro diluiu o foco inicial do movimento, tornando a mensagem mais difusa. A renúncia do delegado do Governo, Francisco Martín, em 25 de outubro, e sua substituição por Pilar Trinidad, também adicionaram um elemento de instabilidade à gestão da situação.

Implicações Políticas e Econômicas

O Partido Popular de Madrid interpretou o desalojamento como uma jogada política do PSOE, argumentando que a ação ocorria agora porque a acampada já não servia aos interesses eleitorais do partido. O prefeito Almeida calculou perdas de mais de 30 milhões de euros para o comércio local devido à ocupação de 38 dias, embora a metodologia para este cálculo não tenha sido detalhada e o Ayuntamiento já tivesse emitido um abono de 30 milhões uma semana antes. Outras estimativas, como a da Cocem, apontaram para cerca de 25 milhões de euros, com a patronal CEIM registrando quedas de até 70% em alguns estabelecimentos. O Governo regional, por sua vez, anunciou que apresentará uma denúncia penal contra o ex-delegado Martín por prevaricação administrativa e omissão do dever de perseguir delitos.

Perguntas em Aberto

O fim da acampada na Puerta del Sol levanta questões sobre os limites do direito de reunião e a gestão de espaços públicos em protestos prolongados. A divergência nos relatos sobre a violência do desalojamento e a falta de transparência na contagem de participantes e no cálculo dos prejuízos econômicos deixam um rastro de incertezas. Resta observar como os movimentos sociais se adaptarão a essa nova dinâmica e qual será a resposta das autoridades em situações futuras de ocupação de espaços públicos, especialmente com as denúncias judiciais em andamento contra o ex-delegado do Governo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka