A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (25) a segunda fase da Operação Disclosure, elevando a pressão sobre os controladores da Americanas (AMER3). Entre os alvos da nova etapa da investigação, que apura a fraude contábil bilionária revelada em 2023, está Carlos Alberto Sicupira, um dos sócios fundadores do 3G Capital e figura central na trajetória da varejista.

A inclusão de Sicupira no radar da PF sinaliza um aprofundamento nas responsabilidades dos acionistas de referência sobre a governança da companhia. Segundo reportagem do Money Times, a operação busca esclarecer os mecanismos que permitiram a ocultação de mais de R$ 20 bilhões em dívidas, um caso que abalou a credibilidade do mercado de capitais brasileiro.

A trajetória do sócio do 3G Capital

Carlos Alberto Sicupira construiu sua reputação empresarial ao lado de Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles. O trio, conhecido pela gestão baseada em metas agressivas e corte de custos, consolidou um império que vai da AB InBev, a maior cervejaria do mundo, até participações estratégicas em gigantes globais. A trajetória de Sicupira, iniciada no Banco Garantia nos anos 1970, tornou-se um modelo de sucesso no setor de private equity.

A investida na Americanas, iniciada em 1981, foi um dos pilares desse ecossistema. A leitura aqui é que o modelo de gestão que trouxe eficiência operacional para a Ambev enfrentou desafios distintos ao ser transposto para o varejo de massa. A relação de décadas entre os sócios, forjada na pesca submarina e consolidada em mesas de negociação, está agora sob escrutínio estatal.

Mecanismos sob investigação

A Operação Disclosure busca entender como a estrutura de controle permitiu que inconsistências contábeis fossem mascaradas por anos. O foco dos investigadores recai sobre a comunicação entre a diretoria executiva e o conselho de administração, bem como a eficácia dos controles internos da Americanas. A questão central é determinar o nível de ciência e participação dos controladores nas decisões que levaram ao rombo.

O uso de instrumentos financeiros, como o risco sacado, é apontado como o principal mecanismo para inflar os resultados operacionais da empresa. Vale notar que a investigação não se limita apenas a falhas técnicas, mas busca identificar o dolo na manipulação de balanços. A complexidade da estrutura societária da varejista torna a tarefa da PF um desafio de rastreamento de responsabilidades.

Tensões para o ecossistema

O desdobramento da investigação gera apreensão no mercado financeiro e entre credores. A possibilidade de responsabilização direta dos controladores pode alterar as dinâmicas de governança em outras empresas do portfólio do 3G Capital. Reguladores, como a CVM, acompanham o caso de perto, buscando restaurar a confiança dos investidores no mercado brasileiro.

Para o ecossistema de negócios, o caso Americanas serve como um precedente sobre a responsabilidade fiduciária de acionistas controladores. A tensão entre o modelo de gestão de alta performance e a conformidade regulatória deve pautar os debates corporativos pelos próximos anos, exigindo maior transparência dos conselhos.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é o impacto jurídico imediato sobre os bens e a liberdade dos envolvidos. A defesa de Sicupira e dos demais sócios deve focar na separação entre a gestão estratégica e a operação diária da varejista.

Os próximos passos da Polícia Federal serão cruciais para definir se a investigação resultará em denúncias formais ou se o caso seguirá para uma longa disputa de responsabilidades civis e administrativas. O mercado aguarda os desdobramentos com cautela.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times