A luz, em sua dança constante com a sombra, é frequentemente negligenciada como um componente arquitetônico. Em Londres, onde a tipologia de sobrado vitoriano é onipresente, o estúdio Polysmiths decidiu colocar este elemento etéreo no centro de seu mais recente projeto: a residência Pine House, em Peckham. A intervenção não se limita a uma simples reforma, mas a uma profunda reinterpretação do espaço, transformando as limitações inerentes a essas construções históricas em oportunidades para uma experiência de moradia mais generosa e luminosa.

O Desafio dos Sobrados Londrinos

Charles Wu, fundador da Polysmiths, descreve as "limitações bem conhecidas" das casas vitorianas de Londres como o ponto de partida para o projeto. Essas casas, frequentemente longas e estreitas, sofrem com a pouca penetração de luz natural, especialmente nas áreas centrais e nos fundos. A ambição da equipe foi clara: reverter essa condição, projetando a própria luz como o material principal. A ideia é que a luz só existe e é apreciada em contraste com a sombra, e que as texturas e os jogos de luz e escuridão são fundamentais para conferir atmosfera a um ambiente. A reforma buscou criar um espaço mais aberto e convidativo, rompendo com a compartimentalização típica dessas residências.

A Luz como Elemento Construtivo

A estratégia central da Polysmiths envolveu a criação de um vazio de pé-direito duplo no centro da casa. Essa intervenção audaciosa permitiu que a luz natural, proveniente de janelas voltadas para o sul no andar superior, banhasse as áreas de convivência no térreo, como a cozinha e a sala de estar. Em vez de uma extensão convencional nos fundos, a remoção de um andar intermediário sobre a parte traseira da casa abriu o espaço, otimizando a entrada de luz. A fachada dos fundos, voltada para sudeste, foi tratada como uma oportunidade: a sala envidraçada foi angulada para capturar mais luz solar, suavizando o canto e intensificando a relação com o exterior. A paleta de materiais — reboco de cal nas paredes de tijolo, painéis de cortiça e madeira — foi escolhida para interagir com a luz, realçando texturas e criando contrastes dinâmicos ao longo do dia.

Materiais que Capturam a Luz

As paredes de tijolo exposto foram tratadas com um leve reboco de cal, criando uma superfície texturizada que reflete a luz de forma sutil e mutável. Nos espaços de convivência principais, painéis de madeira de pinho radiata conferem um tom quente e acolhedor, enquanto a sala envidraçada nos fundos é revestida com painéis de cortiça expandida escura. Esta escolha de material foi intencional, visando criar um forte contraste de textura e sombra quando a luz do sol incide sobre ela. Nos andares superiores, onde se distribuem os quatro quartos e dois banheiros, o reboco de cal nas paredes se une a pisos de madeira e detalhes em azulejo, mantendo a coesão material. A fachada principal, voltada para a rua, foi preservada em sua forma original, com a adição discreta de um gradil de madeira com vegetação no topo, mantendo a harmonia com o entorno urbano.

Um Novo Olhar sobre a Tipologia

A renovação da Pine House pela Polysmiths não é apenas um exercício de design de interiores, mas uma reflexão sobre como a arquitetura pode responder aos desafios de habitação urbana em centros históricos. Ao priorizar a luz e a textura, o estúdio demonstra que é possível infundir vida e amplitude em estruturas que, de outra forma, poderiam parecer sombrias e restritas. A abordagem sugere que, com criatividade e atenção aos detalhes, as limitações de uma tipologia arquitetônica podem se tornar a base para inovações significativas, criando espaços que não apenas abrigam, mas também inspiram e elevam a experiência de quem os habita. O projeto levanta a questão: de que outras maneiras podemos repensar os espaços que nos cercam, utilizando elementos tão fundamentais quanto a luz para transformar nosso dia a dia?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen