A China, apesar de enfrentar uma queda acentuada em sua taxa de natalidade, viu florescer uma indústria de centenas de milhões de euros em torno dos cuidados pós-parto. O fenômeno, conhecido como 'zuò yuè zi' (坐月子), que se traduz como "sentar o mês", é um ritual milenar da medicina tradicional chinesa focado na recuperação da mãe após o parto. Ele preconiza repouso absoluto, isolamento e uma dieta específica para facilitar a recuperação física e mental. O que antes era um costume familiar, hoje se transformou em um mercado de luxo, onde famílias abastadas desembolsam dezenas de milhares de dólares, podendo ultrapassar os US$ 100.000, por um mês de cuidados especializados.
A modernização do "sentar o mês"
O conceito de "zuò yuè zi" remonta a mais de 2.000 anos, à dinastia Han. Tradicionalmente, as recomendações incluíam repouso rigoroso, evitando esforços físicos, banhos e até mesmo lavar os cabelos por um período de 30 a 42 dias, a fim de prevenir "frio" e "correntes de ar" nocivos à saúde da mãe. Essa filosofia, ainda que adaptada, permanece influente. Empresas visionárias identificaram o potencial de monetização dessa prática culturalmente enraizada. Elas oferecem uma versão modernizada e luxuosa do ritual, transformando a recuperação pós-parto em uma experiência exclusiva.
Centros de luxo e hotéis de cinco estrelas
Em vez de se recuperar em casa, muitas mães chinesas optam por estadias em centros especializados ou em plantas de hotéis de luxo, como o Four Seasons. Esses estabelecimentos contam com equipes de enfermagem 24 horas, especialistas em lactação e reabilitação pós-parto, além de pediatras dedicados. A oferta vai além do básico, incluindo tratamentos personalizados e acompanhamento contínuo para mãe e bebê. Em 2018, a China já contava com mais de 3.000 centros de atenção pós-natal. O mercado, que movimentava cerca de 1,2 bilhão de euros em 2018, atingiu 2,9 bilhões em 2022 e projeta-se que ultrapasse os 10 bilhões de euros até o final da década, com um crescimento anual estimado em 24% a partir de 2024.
Implicações sociais e econômicas
O alto custo desses serviços, com estadias premium podendo chegar a mais de US$ 50.000 mensais, como noticiado pelo South China Morning Post e Vogue, reflete não apenas o luxo oferecido, mas também a valorização da saúde e bem-estar materno em um contexto de baixa natalidade. Para algumas famílias, o investimento em cuidados pós-parto de alto padrão pode ser visto como um incentivo para ter filhos, mitigando as preocupações com a recuperação e o cuidado inicial. A ascensão desses centros de luxo também levanta questões sobre a acessibilidade e as disparidades sociais, onde a qualidade da recuperação pós-parto se torna um marcador de status.
Perguntas em aberto
O fenômeno do "zuò yuè zi" de luxo na China levanta questões sobre a sustentabilidade desse modelo de negócio em um país com desafios demográficos. Será que o investimento em serviços de alto padrão pode, de alguma forma, contrabalancear a tendência de queda na natalidade? Ou o foco no luxo apenas acentua as divisões sociais? A evolução desse mercado, com sua fusão entre tradição e exclusividade, continuará a moldar a forma como a maternidade é percebida e vivenciada pelas elites chinesas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





