Há um sotaque na forma como cada cidade dirige. A buzina em São Paulo é um idioma próprio, distinto da negociação corporal dos carros no Cairo ou da paciência calculada no trânsito de Los Angeles. Cada lugar desenvolveu uma cultura automotiva, um conjunto de tiques e maneirismos não escritos que ditam o fluxo caótico das ruas. Essa diversidade, contudo, está com os dias contados.
A era do veículo autônomo não se trata apenas de substituir o motorista, mas de substituir a própria cultura de dirigir. Empresas como Waymo, do Google, e Motional, apoiada pela Hyundai, não estão apenas construindo táxis-robôs; seu objetivo final é criar o "motorista" definitivo — um sistema operacional para carros. Dmitri Dolgov, co-CEO da Waymo, já expressou o desejo de ver seu software instalado em carros particulares, uma ambição que transformaria a empresa em uma espécie de Microsoft ou Apple do asfalto.
O duopólio do asfalto
O futuro da direção se parece menos com uma corrida de montadoras e mais com a guerra dos sistemas operacionais de smartphones. O desenvolvimento de software de direção autônoma é tão caro e complexo que apenas um punhado de empresas, como Waymo, Tesla e talvez a chinesa Baidu, deve prevalecer. O resultado provável não é um ecossistema variado, mas um duopólio ou oligopólio global, assim como Airbus e Boeing dominam os céus com seus algoritmos de piloto automático.
Nesse cenário, a marca do seu carro importará menos do que o "motorista" de software que o opera. Poderemos notar pequenas diferenças: um Waymo talvez seja mais defensivo, enquanto um Tesla pode parecer mais audacioso. Mas as nuances culturais que definem o trânsito de uma cidade — a agressividade, a cortesia, a comunicação por gestos e luzes — serão diluídas em um padrão global de eficiência e previsibilidade. A tecnologia, mais uma vez, atuará como um grande nivelador.
Segurança versus Monotonia
Os argumentos a favor dessa padronização são inegáveis. Motoristas humanos são, sob qualquer ótica de saúde pública, um desastre. Acidentes de carro matam dezenas de milhares de pessoas anualmente e o tempo perdido no trânsito consome centenas de horas por ano. Um software que dirige melhor e de forma mais segura que qualquer humano é um avanço civilizacional. Para cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro, a promessa de um tráfego mais fluido e seguro é imensamente sedutora.
Contudo, a troca envolve uma perda. A tecnologia tende a eliminar o atrito que permite o florescimento de culturas locais. A eficiência do algoritmo apaga as idiossincrasias. Ganharemos tempo e salvaremos vidas, um benefício que não pode ser subestimado. Mas, no processo, o ronco dos motores e as buzinas das metrópoles podem se tornar um som universal, monótono e perfeitamente otimizado.
O mundo se tornará um lugar mais seguro para se locomover, sem dúvida. Mas talvez um pouco menos interessante. A questão que fica é se, ao entregar o volante para o software, não estaremos também entregando uma pequena, e barulhenta, parte do que nos torna humanos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





