A exposição Unruly Vessel, em cartaz na Scuola Piccola Zattere em Veneza, apresenta uma série de esculturas cinéticas que desafiam a percepção do público sobre o repouso e a utilidade. Composta por dispositivos de massagem, máquinas de exercícios e plantas artificiais, a obra de Rachel Youn coloca em movimento objetos que, em sua concepção original, foram projetados para curar, acalmar ou melhorar o corpo humano. Segundo reportagem do Designboom, as peças revelam como o ciclo de repetição, frequentemente associado ao bem-estar, pode se transformar em um exercício contínuo de resistência e exaustão.
Para a artista, esses dispositivos não são meros materiais de construção, mas colaboradores que possuem suas próprias personalidades e histórias de uso. Ao desmontar equipamentos secondhand, Youn investiga a mecânica oculta sob as carcaças de plástico, encontrando nos motores a capacidade de imitar movimentos humanos, como o toque das mãos ou o ritmo de um abraço. A mostra, que permanece aberta até novembro de 2026, propõe uma reflexão sobre como a tecnologia de autocuidado, ao falhar em seu propósito original, acaba por expor as fragilidades e as obsessões da cultura contemporânea pelo aprimoramento pessoal.
A anatomia do dispositivo descartado
A relação de Youn com esses objetos começou há quase uma década, quando a artista passou a colecionar produtos de bem-estar que haviam sido descartados ou doados. A fascinação pelo modo como esses aparelhos tentam replicar o toque humano — como polegares pressionando membros doloridos ou mãos simulando uma massagem — tornou-se a base de sua investigação artística. O interesse pela artificialidade dos movimentos e pelo trabalho mecânico que eles emulam reflete a preocupação da artista com a natureza uncanny (estranha) desses gestos, que permanecem ativos mesmo após o esgotamento do desejo de conforto que os originou.
Historicamente, a artista traça paralelos entre as práticas modernas de saúde e sistemas antigos de regulação do corpo. Ela aponta, por exemplo, que a esteira moderna descende da roda de piso (treadwheel), um dispositivo originalmente concebido como um instrumento de tortura para prisioneiros. Ao justapor aparelhos de ginástica e massagem com a história de instituições psiquiátricas e locais de confinamento, como a Pubblica Fusta em Veneza, Youn questiona os limites entre a cura e a punição. Essa análise sugere que a distinção entre o cuidado terapêutico e a disciplina imposta reside, muitas vezes, apenas na voluntariedade do indivíduo.
Mecanismos de repetição e exaustão
O mecanismo central na obra de Youn é a repetição, que oscila entre o ritual restaurador e a compulsão debilitante. Em suas instalações, os motores ativam os mesmos gestos de forma cíclica, criando um efeito hipnótico que, para a artista, beira a tortura. A questão central que a obra levanta é o momento exato em que a rotina, seja ela de trabalho ou de autocuidado, deixa de ser um alicerce para a estabilidade e se torna uma fonte de angústia. Ao observar o funcionamento contínuo desses dispositivos, o espectador é convidado a refletir sobre a própria relação com as exigências de produtividade que definem a vida moderna.
As plantas artificiais utilizadas nas esculturas amplificam essa ambiguidade. Elas funcionam como substitutas humanas, cujos ramos e pétalas se contorcem sob o comando de motores de massagem. Ao introduzir movimento em objetos projetados para permanecerem imutáveis, a artista interrompe a ilusão de perfeição e controle que a natureza artificial propõe. A obra sugere que, ao tentarmos preservar a saúde ou a juventude por meio de tecnologias, acabamos por criar sistemas que, em sua repetição, revelam a própria finitude e a falha de nossos ideais de perfeição.
Implicações sobre o desejo e a falha
A empatia de Youn pelos objetos descartados é um ponto fundamental de sua prática. Ela enxerga em cada massageador ou máquina de remo uma narrativa de desejo não realizado, representando a esperança de transformação que o proprietário original depositou no objeto antes de abandoná-lo. Essa perspectiva transforma a exposição em um inventário de frustrações humanas, onde a tecnologia, em vez de conectar, muitas vezes atua como um atalho para a interação íntima, falhando em suprir as necessidades emocionais que prometeu atender.
Para o público, a experiência de contemplar essas máquinas é mediada pelo humor e pelo absurdo. Embora as peças tratem de temas como obsolescência e fadiga, a artista defende que o riso é uma forma de relação, um terreno comum de compreensão entre o espectador e a obra. A capacidade de reconhecer a própria exaustão na repetição mecânica dos objetos permite uma forma de alívio, ainda que temporário, diante da pressão estrutural por um aprimoramento constante que, na prática, raramente atinge o resultado final desejado.
Perspectivas e o ciclo da mortalidade
O que permanece em aberto no trabalho de Youn é a evolução dessa exploração em direção a escalas maiores e ambientes imersivos. A artista tem voltado sua atenção para fenômenos biológicos, como o ciclo de vida de plantas monocárpicas que morrem após uma única floração dramática. Esse interesse sugere uma transição em sua pesquisa, onde a intersecção entre o mecânico e o biológico passará a abordar de forma mais direta a mortalidade e a beleza do declínio, temas que se somam à sua investigação sobre o fracasso das promessas de bem-estar.
Observar o desenvolvimento futuro dessas instalações permitirá entender como a artista integrará novos elementos à sua ecologia de máquinas e corpos artificiais. A questão de como o conforto e a dor continuarão a ser renegociados em sua obra permanece como um espelho da própria condição humana, sempre em busca de um equilíbrio que, por definição, é dinâmico, instável e, por vezes, profundamente irônico. O trabalho de Rachel Youn não oferece respostas, mas convida o espectador a questionar o valor das rotinas que sustentam a vida cotidiana.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





