A sanção do Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata) representa uma vitória para a indústria de tecnologia no Brasil, e poucas empresas se beneficiam tanto quanto a Nvidia. O novo regime, que isenta uma série de impostos de importação, ataca diretamente o alto custo de trazer para o país as GPUs que são a espinha dorsal da revolução da inteligência artificial.

Para a Nvidia, a mudança é drástica. Contudo, a leitura que emerge de uma entrevista de seu executivo local, Marcel Saraiva, ao InfoMoney, é que a aprovação da lei não é o fim da jornada, mas o começo de uma nova etapa. Resolvido o gargalo tributário, os desafios para escalar a infraestrutura de IA no Brasil se tornam eminentemente físicos: espaço e energia.

Do imposto à tomada

O impacto do Redata no custo de hardware é a notícia principal. Segundo simulações citadas por Saraiva, um equipamento que custa US$ 100 mil no exterior e chegava ao Brasil por US$ 190 mil, agora pode desembarcar por um valor entre US$ 120 mil e US$ 125 mil. A diferença, embora ainda existente devido a frete e ICMS, torna o investimento substancialmente mais viável e posiciona o Brasil de forma mais competitiva no cenário global de data centers.

Essa redução de custo, porém, apenas transfere o foco do problema. O chamado “Custo Brasil”, que antes era sinônimo de complexidade tributária, agora se manifesta na infraestrutura. A demanda por processamento de IA não espera a construção de novas redes de transmissão ou a adaptação de galpões. A aprovação da lei foi o passo político; o próximo é o de engenharia.

Da GPU ao galpão

Os dois novos gargalos apontados pela Nvidia são interdependentes. O primeiro é o espaço. A crescente demanda exige mais servidores, e grandes investimentos estão sendo feitos por empresas de colocation. O problema é que muitos dos data centers em operação não estão preparados para a refrigeração líquida, essencial para as GPUs mais modernas da Nvidia. Isso exigirá um ciclo de retrofit ou a construção de novas instalações já adaptadas.

O segundo desafio é a energia. Embora o Brasil possua uma matriz energética majoritariamente renovável — um trunfo competitivo —, a distribuição é um obstáculo. Não basta ter energia disponível; é preciso que ela chegue de forma estável e em grande volume aos locais onde os data centers estão sendo construídos. Para Saraiva, a solução passa por “aproximar os data centers dessas fontes de energia”, uma consideração logística e de planejamento urbano que adiciona outra camada de complexidade.

Com o Redata, o Brasil removeu uma barreira significativa para se tornar um polo de IA. A questão agora é se o país conseguirá construir as fundações físicas — elétricas e imobiliárias — na mesma velocidade em que o software e a demanda por ele evoluem. A corrida, que antes era travada em Brasília, agora se desloca para o canteiro de obras e para a sala de controle da rede elétrica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney