O governo do Reino Unido promoveu uma reestruturação ministerial que, na prática, extinguiu seu ministério dedicado à tecnologia. As responsabilidades por ciência, inteligência artificial, espaço e governo digital foram pulverizadas e redistribuídas entre múltiplos departamentos, criando uma colcha de retalhos de portfólios concorrentes.

A justificativa oficial é que a tecnologia se tornou uma prioridade transversal, grande demais para ser contida em uma única pasta. A leitura de analistas, contudo, é que, ao se tornar tarefa de todos, a pauta corre o risco de não ser responsabilidade real de ninguém. Segundo uma análise do site The Register, a mudança gera mais confusão do que clareza, minando a credibilidade da estratégia de inovação do país.

Um quebra-cabeça de portfólios

A nova configuração departamental parece um estudo de caso sobre diluição de foco. A ciência foi alocada no Departamento de Negócios, Inovação, Ciência e Comércio (BIST). Já o “digital” — incluindo infraestrutura, cibersegurança e governo digital — foi para a pasta de Cultura, Mídia e Esporte (DCMS). A inteligência artificial, por sua vez, ganhou um ministro de estado com um pé em cada canoa, atuando entre o Gabinete do Primeiro-Ministro e o BIST.

O exemplo mais sintomático talvez seja o da pasta de governo digital. A função, que nos últimos dois anos já passou por três departamentos diferentes, agora está sob a alçada de uma ministra júnior no DCMS, que acumula a tarefa com as de esporte e turismo. É questionável se ela terá o capital político necessário para confrontar os grandes fornecedores de tecnologia que historicamente dominam os contratos públicos, enquanto outros ministros cortejam as mesmas empresas em busca de investimentos.

A lógica por trás do caos

Em sua defesa, o governo argumenta que a reorganização é necessária para garantir que o Reino Unido se posicione como líder mundial em IA, ciência e tecnologia. A ideia é que, ao permear todo o governo, a pauta ganhe mais importância. Contudo, a fragmentação pode produzir o efeito oposto. A análise do The Register aponta que, sem uma liderança central e com poder de barganha, torna-se difícil conduzir uma estratégia nacional coesa ou promover reformas estruturais em sistemas legados.

A separação entre “ciência” e “digital” é particularmente questionada. Historicamente, o desenvolvimento de hardware e software caminhou junto com a pesquisa acadêmica — a World Wide Web e a DeepMind, ambos projetos britânicos, nasceram em universidades. Ao colocar o digital mais perto da cultura e da mídia do que da ciência, o governo arrisca tratar a tecnologia como um produto de consumo, e não como um motor de pesquisa e desenvolvimento fundamental.

O experimento britânico serve como um estudo de caso sobre os desafios da governança pública da tecnologia. A questão não é se a pauta deve ser integrada ao restante do governo, mas como fazê-lo sem perder foco, prestação de contas e capacidade de execução. O resultado será uma lição para outras nações que buscam organizar suas próprias estratégias digitais.

Source · The Register