A mais recente edição do Art Basel & UBS Survey of Global Collecting, um estudo anual que mapeia o comportamento de colecionadores de alto patrimônio, apresentou descobertas que desafiam percepções comuns sobre o mercado de arte. Um dos achados mais surpreendentes é o protagonismo financeiro da Geração Z. Contrariando o receio de que as gerações mais novas pudessem ser menos ativas no mercado, a pesquisa, que entrevistou 3.100 colecionadores de alto poder aquisitivo, revelou que este grupo investiu, em média, o maior valor em 2025 e 2026. Eles foram responsáveis por mais do dobro do montante investido por gerações mais velhas, com um gasto médio de US$ 347.460 em 2025, um aumento de 19% em relação ao ano anterior. Essa tendência de alta se manteve em 2026, abrangendo quase todos os segmentos de colecionáveis.

No entanto, essa mesma geração demonstra uma preferência crescente pela privacidade. Quase o dobro dos colecionadores de outras faixas etárias afirmou que prefere manter o acesso às suas coleções privado. Em outra reviravolta, colecionadores de todas as idades têm recorrido cada vez mais à inteligência artificial. O uso de IA para obter conselhos, recomendações e verificações de proveniência saltou de 4% em 2024 para expressivos 22% neste ano, indicando uma mudança significativa na forma como os compradores de arte buscam informações e tomam decisões.

Crise na Galeria Tang Contemporary Expõe Riscos do Setor

Enquanto o mercado se adapta a novas tecnologias e perfis de colecionadores, questões estruturais e de confiança continuam sendo um ponto de tensão. Um exemplo notório é o da galeria Tang Contemporary, que enfrenta sérias acusações de artistas, proprietários e outros fornecedores. Relatos indicam que a galeria não teria efetuado pagamentos e estaria retendo obras de arte. Embora a unidade da galeria no bairro de Wong Chuck Hang, em Hong Kong, tenha anunciado seu fechamento em agosto, outras filiais em Bangkok, Pequim, Seul, Singapura e no centro de Hong Kong continuam operacionais. Em agosto, um aviso legal foi afixado na porta da galeria fechada, mas a diretora Vivian Har negou que artistas tivessem iniciado processos formais contra a instituição.

Contudo, um advogado representando um artista anônimo declarou que uma queixa legal foi apresentada na Tailândia em 14 de agosto, alegando que a galeria deve ao seu cliente cerca de US$ 450.000. Outros artistas também relataram à imprensa que a galeria lhes deve dinheiro. Paralelamente, o proprietário do imóvel da galeria fechada em Hong Kong está exigindo aproximadamente US$ 201.000 em aluguéis não pagos referentes a este ano, além de outras taxas, e já teria apresentado uma queixa legal anteriormente. A situação levanta questões sobre a saúde financeira e a transparência operacional da galeria em suas diferentes praças.

Análise: As Duas Faces do Mercado de Arte

As duas narrativas — a de um mercado em expansão impulsionado por jovens e tecnologia, e a de uma galeria estabelecida sob suspeita de má gestão — pintam um retrato complexo do cenário atual. Por um lado, as descobertas do relatório Art Basel & UBS apontam para um futuro robusto. O poder de compra da Geração Z e a crescente confiança na IA para tarefas como verificação de proveniência podem otimizar processos e trazer mais liquidez ao setor. As galerias que se adaptarem às preferências dessa nova geração por privacidade e ferramentas digitais têm um grande potencial de crescimento.

Por outro lado, o caso da Tang Contemporary serve como um alerta contundente: inovação tecnológica não substitui a necessidade de confiança e saúde financeira. Em um mercado onde a reputação é tudo, a capacidade de uma galeria de honrar seus compromissos com artistas e parceiros é fundamental. A situação destaca a importância de mecanismos de proteção para artistas e a necessidade de transparência na gestão, pilares que sustentam a sustentabilidade do ecossistema.

O futuro do mercado de arte será moldado pela forma como o setor equilibrará essas forças. Como as galerias podem usar a tecnologia para atender aos novos colecionadores sem comprometer a curadoria humana e a relação com os artistas? De que maneira a IA pode ser integrada de forma ética, e como garantir que a base do negócio — a confiança e a responsabilidade financeira — permaneça sólida? A resposta a essas perguntas definirá o cenário artístico nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews