Em uma inflexão radical para o debate presidencial, o candidato Renan Santos, do partido Missão, defendeu que o Brasil abandone o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. A proposta, apresentada em entrevista ao portal Metrópoles, prevê o desenvolvimento de capacidade militar atômica no longo prazo como forma de projetar o país no cenário global.

A tese é que o poderio bélico traria ao Brasil a cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU e maior peso em negociações. O cálculo, contudo, ignora o custo real de um movimento que colocaria o país em rota de colisão com o mundo e com sua própria Constituição, trocando um ativo diplomático por uma fantasia de poder.

O cálculo geopolítico equivocado

A ambição de Renan Santos parte de uma premissa fundamentalmente equivocada sobre o poder no século 21. A posição do Brasil como uma potência regional estável e pacífica é um de seus maiores ativos diplomáticos. Romper com o tratado de não-proliferação anularia décadas de construção de confiança, transformando o país de mediador a ameaça e arriscando uma corrida armamentista na América do Sul.

A ideia de que tal movimento seria negociado com Estados Unidos e China, como sugeriu o candidato, beira a ingenuidade. A resposta mais provável seria um coro de condenação internacional, sanções econômicas e um isolamento diplomático profundo, minando justamente a influência que se pretende aumentar.

A barreira constitucional e a tradição do Itamaraty

Além do vespeiro geopolítico, a proposta esbarra em um obstáculo doméstico intransponível no curto prazo: a Constituição Federal. O artigo 21 determina expressamente que "toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos". Alterar a Carta Magna para permitir um programa de armas nucleares exigiria um capital político monumental e sinalizaria uma ruptura institucional.

A sugestão também representa um ataque frontal à tradição diplomática brasileira. O Itamaraty construiu a inserção internacional do país sobre os pilares do multilateralismo, do direito internacional e do soft power. Trocar essa herança por uma fantasia de hard power, sem os recursos ou a coesão nacional para sustentá-la, é uma aposta de altíssimo risco.

A proposta, talvez um balão de ensaio de campanha para sinalizar força, força uma reflexão. O debate sobre soberania é legítimo, mas o caminho para a relevância global dificilmente passa por blefes nucleares. A questão que fica é se o Brasil busca ser uma potência construtora de consensos ou uma fonte de instabilidade regional com ambições que não pode sustentar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney