A Rillet, startup de contabilidade nativa em inteligência artificial, acaba de levantar US$ 100 milhões numa rodada Série C que a avaliou em US$ 1 bilhão, consolidando seu status de unicórnio. O aporte se soma a outros US$ 200 milhões captados nos últimos 12 meses, num ritmo que evidencia a demanda por sua plataforma.
Mais do que um ataque frontal aos sistemas de ERP legados da Oracle, SAP e Workday, o avanço da Rillet sinaliza uma transformação profunda no mercado de serviços profissionais. Ao automatizar o trabalho repetitivo de contabilidade, a empresa está forçando gigantes da consultoria como EY e KPMG a repensar o perfil de talento que contratam, trocando implementadores de software por especialistas em dados e IA.
O fim do consultor de planilhas
Por décadas, a carreira de um consultor júnior em finanças era sinônimo de projetos longos e repetitivos de implementação de sistemas ERP. Como descreveu o CEO da Rillet, Nicolas Kopp, em entrevista ao Business Insider, não há "nada divertido em implementar sua terceira instância do Oracle Fusion e ver três anos de sua vida passarem" enquanto se manipula planilhas. A proposta da Rillet é simples: usar IA para manter a contabilidade de uma empresa atualizada em tempo real, reduzindo drasticamente o tempo que "humanos passam clicando em botões".
Os resultados parecem validar a tese. Uma análise da Andreessen Horowitz com clientes da Rillet mostrou que 87% deles tinham menos de 1% de seus lançamentos contábeis para revisar no fechamento do mês. A automação está transformando um ritual mensal de alta intensidade num processo contínuo e de baixa fricção. Para as empresas, o ganho de eficiência é claro. Para os profissionais, é o fim de uma era.
O novo perfil: engenheiro e estrategista
Se a IA está absorvendo o trabalho de base, o valor da consultoria migra para camadas mais altas de abstração. A Rillet já formalizou uma aliança com a EY e trabalha com outras firmas como RSM e KPMG. Para elas, a oportunidade não está mais na implementação, mas na "gestão da mudança" e na criação de soluções sobre a plataforma de IA — transformando décadas de expertise contábil em "agentes" e modelos de análise.
Isso exige um novo tipo de profissional. Kopp afirma que "a régua está subindo". O trabalho de generalista será cada vez mais absorvido pela IA, abrindo espaço para especialistas de domínio e profissionais com forte viés tecnológico — os chamados "forward-deployed engineers", que atuam na intersecção entre produto e cliente para aplicar ferramentas de IA. A demanda por esses perfis, capazes de lidar com grandes volumes de dados e construir agentes autônomos, cresce exponencialmente.
Para as consultorias, a parceria com startups como a Rillet torna-se tanto uma necessidade defensiva quanto uma ferramenta para atrair uma nova geração de talentos que não se sente atraída pela perspectiva de passar anos em planilhas. A questão que fica é se as estruturas tradicionais dessas gigantes conseguirão se adaptar na velocidade que a tecnologia impõe.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





