A qualidade da água em rios espanhóis tem se deteriorado, colocando o país na liderança europeia em termos de concentração de fósforo e matéria orgânica por litro. Dados compilados pela Universitat Politècnica de València (UPV) revelam um cenário preocupante, onde rios espanhóis superam significativamente a média de outros países do continente em indicadores de poluição. Embora a Espanha não figure entre os piores ecologicamente falando, a tendência de piora em indicadores chave como os fosfatos é um sinal de alerta que não pode ser ignorado.
Agravamento da Contaminação
A pesquisa da UPV introduziu o índice HPRE (Human Pressure on River Ecosystems), que combina a demanda bioquímica de oxigênio (DBO) – um indicador do oxigênio consumido por microrganismos para decompor matéria orgânica – e os níveis de fosfatos, um nutriente que pode desencadear a proliferação de algas e a consequente eutrofização dos corpos d'água. Os resultados para a Espanha são alarmantes: a concentração de fosfatos, que já era elevada, triplicou em cerca de 16 anos, passando de 0,160 mg/l no final dos anos 2000 para 0,448 mg/l em 2021 e atingindo 0,547 mg/l em 2023. Embora a matéria orgânica tenha apresentado uma leve redução após um pico em 2016, seus níveis permanecem superiores aos registrados em 2007. Essa trajetória contrasta com a melhora generalizada observada em outros rios europeus no mesmo período.
Causas da Concentração Elevada
A explicação para essa tendência peculiar reside em uma combinação de fatores geográficos e socioeconômicos. Um estudo da Universidade Técnica de Košice aponta que o baixo caudal dos rios espanhóis, aliado à intensa pressão do uso da água para regadio e à urbanização turística, compromete a capacidade natural de diluição dos poluentes. Mesmo que as práticas de gestão de água em alguns setores possam ter melhorado em comparação com outros países, a menor quantidade de água disponível faz com que a concentração de contaminantes por litro seja mais elevada. Essa situação é crítica, pois mesmo com esforços comparativos, a pouca água e o alto teor de fósforo levam inexoravelmente à eutrofização, um processo que degrada severamente os ecossistemas aquáticos.
Implicações e Soluções Pendentes
As implicações dessa poluição são vastas, afetando a biodiversidade aquática, a qualidade da água potável e o potencial de uso recreativo e econômico dos rios. A União Europeia tem buscado combater o problema, e uma nova diretiva sobre o tratamento de águas residuais urbanas torna obrigatório o tratamento terciário em áreas com risco de eutrofização. No entanto, a Espanha ainda precisa transpor a nova legislação, cujo prazo para implementação se estende até meados de 2027. A demora na implementação de medidas eficazes, como o tratamento terciário, é um reflexo de uma aparente falta de prioridade dada à gestão hídrica no país, como evidenciado por condenações anteriores do Tribunal de Justiça da União Europeia.
O Futuro da Água na Espanha
O cenário atual levanta questões cruciais sobre o futuro da gestão hídrica na Espanha. A persistente poluição dos rios, impulsionada por fatores como o baixo caudal e a pressão do uso da terra, exige uma reavaliação urgente das políticas públicas. A transposição da diretiva europeia e a implementação efetiva de tecnologias como o tratamento terciário são passos necessários, mas a mudança cultural em relação à valorização da água parece ser o componente mais desafiador. A forma como a Espanha abordará esses desafios definirá não apenas a saúde de seus rios, mas também a sustentabilidade de seu desenvolvimento econômico e social a longo prazo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





