A edição deste ano da Viennale, um dos festivais de cinema mais prestigiados do mundo, abre suas cortinas em Viena com uma homenagem especial a Robert Aldrich. O cineasta, conhecido por sua abordagem visceral e muitas vezes sombria do cinema americano, é celebrado através de uma retrospectiva que abrange quase três décadas de sua prolífica carreira e cerca de trinta de seus filmes. A mostra, que vai até 3 de novembro, não apenas exibe seus sucessos globais como "Vera Cruz" (1954), "What Ever Happened to Baby Jane?" (1962), "The Dirty Dozen" (1967) e "The Longest Yard" (1974), mas também mergulha em obras-primas que redefiniram gêneros, como o noir apocalíptico "Kiss Me Deadly" (1955) e o western melancólico "Ulzana’s Raid" (1972).
O Legado de um Rebelde
A figura de Aldrich emerge como a de um verdadeiro rebelde em Hollywood. Seus filmes frequentemente exploravam o lado mais sombrio da condição humana, mergulhando em personagens complexos e situações de alta tensão. "Kiss Me Deadly", em particular, é citado como um marco, com sua trama envolvendo um detetive cínico, Mike Hammer, em um labirinto violento que culmina em uma visão de aniquilação cósmica. A narrativa, descrita como "sensacionalmente barroca", eschew a exposição direta em favor de imagens chocantes e enigmas codificados, um estilo que remete à ousadia de Orson Welles. Essa intensidade e a capacidade de criar atmosferas densas são elementos que continuam a ressoar no cinema contemporâneo, inspirando diretores que buscam explorar as profundezas psicológicas de seus personagens.
A Influência Contemporânea
A curadoria da retrospectiva, liderada por Christoph Huber do Austrian Film Museum, destaca não apenas a importância histórica de Aldrich, mas também sua relevância duradoura. Diretores renomados como Kelly Reichardt, Claire Denis, Radu Jude e Joanna Hogg, que já criaram trailers para o festival, demonstram o alcance de sua influência. A escolha de Reichardt para criar o novo trailer da Viennale deste ano é um testemunho de como a visão de Aldrich transcende gerações. A obra de Aldrich, caracterizada por uma mistura de expressionismo neurótico e um domínio do ofício cinematográfico, serviu como um campo de estudo para muitos cineastas que admiram sua habilidade em contar histórias envolventes, onde cada incidente revela subtexto e aprofunda o retrato dos personagens. Essa dedicação à narrativa estruturada, combinada com uma exploração audaciosa de temas complexos, solidifica seu lugar como um mestre.
Um Olhar sobre a Obra
Aldrich não se limitou a um único gênero. Ele navegou com maestria por filmes de guerra, westerns, noir, melodramas e comédias, sempre imprimindo sua marca distintiva. "The Big Knife" (1955), outro filme de 1955, é um exemplo de seu mergulho no psicodrama de Hollywood, um tema que ele aprimorou em sátiras mordazes como "What Ever Happened to Baby Jane?" e "The Killing of Sister George" (1968). Este último, em particular, tornou-se um marco do cinema cult queer, notável por sua abordagem ousada e controversa de personagens lésbicas em uma época de forte censura. A capacidade de Aldrich de reunir um elenco de ícones e extrair deles performances de notável poder emocional, combinando a experiência com uma narrativa sólida, é um dos pilares de seu legado. Seus filmes são, em essência, os esforços de um artista trabalhador, em sintonia com seu lado peculiar e com as exigências práticas de uma história bem contada.
Reflexões e Perguntas em Aberto
A retrospectiva em Viena e o lançamento do livro bilíngue "Robert Aldrich: Hollywood Rebel / Rebell in Hollywood" oferecem uma oportunidade ímpar para revisitar e reinterpretar a obra de um cineasta que desafiou convenções. A unanimidade com que publicações como "Cahiers du cinéma" e "Positif" declararam 1955 o "Ano de Aldrich" ressalta o impacto imediato de seus filmes. No entanto, a verdadeira medida de seu legado reside na forma como sua visão artística continua a inspirar e a provocar reflexão. A pergunta que permanece é: como a audácia e a profundidade psicológica que definiram o cinema de Aldrich continuarão a moldar as narrativas cinematográficas no futuro, em um mundo cada vez mais complexo e saturado de imagens?
Source · Criterion Daily





