Sob o sol romano, onde a história sussurra em cada esquina, a Galleria Borghese, um tesouro do século XVII, encontra-se no centro de uma tempestade. O museu, que abriga obras-primas de Bernini, Caravaggio e Rafael, está lotado. A diretora Francesca Cappelletti fala de filas diárias de 2.000 visitantes, a maioria turistas internacionais, que se decepcionam ao não conseguir entrar, mesmo com reservas online. A solução proposta: uma expansão de 3.000 metros quadrados, orçada em US$ 11,15 milhões (€10 milhões), com o apoio do Ministério de Bens Culturais e da prefeitura de Roma.
O Legado em Jogo
A proposta de Cappelletti visa não apenas acomodar o fluxo crescente de visitantes, mas também dar visibilidade a obras que hoje repousam em depósitos. A ideia é criar um espaço para exposições temporárias, um restaurante e uma livraria, além de um laboratório. A diretora defende a necessidade de uma estrutura contemporânea, citando o exemplo da pirâmide do Louvre como um sucesso na integração do novo ao antigo. A nova construção, segundo ela, será projetada para harmonizar com o estilo clássico da villa e o paisagismo circundante, mantendo a identidade branca e elegante do local. A competição para o projeto já foi lançada, organizada pela Proger Spa, com a seleção dos vencedores prevista para maio de 2027.
A Fúria da Preservação
Contudo, a visão de Cappelletti encontra resistência feroz. Alix van Buren, presidente da associação Amigos da Villa Borghese, classificou o projeto como "grotesco" e "blasfêmia". Para ela, a villa é um "ecossistema artístico inalterável", onde qualquer intervenção desequilibra a harmonia. Michele Campisi, da associação Italia Nostra, ecoa o sentimento, chamando os planos de "bizarros" e acusando o museu de buscar popularidade em detrimento da qualidade, comparando-o ao Coliseu. O professor de história da arte Tomaso Montanari foi ainda mais duro, descrevendo a expansão como "idiota" e comparando-a a "construir uma extensão na cúpula de Brunelleschi". Fabio Rampelli, vice-presidente da câmara baixa do parlamento italiano, chegou a pedir a renúncia de Cappelletti, criticando a atitude de "tratar um espaço como este como se fosse o seu jardim de trás".
O Dilema da Modernidade
O embate na Galleria Borghese reflete um dilema global no universo da arte e da arquitetura: como conciliar a preservação do patrimônio histórico com as demandas da contemporaneidade? A crescente popularidade de museus, impulsionada pelo turismo de massa e pela democratização do acesso à cultura, coloca pressão sobre instituições que, por sua natureza, guardam bens frágeis e insubstituíveis. A necessidade de inovar, de oferecer novas experiências e de se manter financeiramente viável colide com o imperativo de proteger a autenticidade e a integridade das obras e de seus contextos originais. A gestão de um museu como a Borghese exige, portanto, um equilíbrio delicado entre o respeito ao passado e a adaptação ao futuro.
Perguntas no Ar
O debate em torno da expansão da Galleria Borghese levanta questões cruciais. Será que a busca por maior fluxo de visitantes e novas fontes de receita inevitavelmente compromete a essência histórica e artística de um local? Como encontrar o ponto de equilíbrio entre a necessidade de modernização e a preservação de um legado cultural insubstituível? E, afinal, quem detém a autoridade para decidir sobre o destino de monumentos que pertencem ao imaginário coletivo? A resposta a essas perguntas moldará o futuro de muitos outros tesouros culturais ao redor do mundo.
A Galleria Borghese, com sua beleza e seus dilemas, nos força a confrontar a complexidade de salvaguardar o passado enquanto nos movemos para o futuro. A decisão final sobre a expansão, que repousa nas mãos da diretoria, com o escrutínio de especialistas e a vigilância pública, definirá um novo capítulo na história desta joia romana, seja ele de harmonia ou de discórdia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





