A Ryanair, principal companhia aérea de baixo custo da Europa, elevou o tom contra Bruxelas. A empresa pediu publicamente à Comissão Europeia que prorrogue de forma urgente a isenção do novo Sistema de Entrada e Saída (EES) para controle de passaportes até, no mínimo, abril de 2027. O apelo, divulgado em comunicado, ocorre logo após o vencimento da isenção anterior, no último domingo.

O movimento expõe uma falha crítica entre a ambição regulatória da União Europeia e a realidade operacional de suas fronteiras. Para a Ryanair, a implementação do sistema digital tem sido um "desastre de princípio a fim", nas palavras de seu diretor de operações, Neal MacMahon. A tese é que forçar a adoção de uma tecnologia despreparada resultará em mais caos para os passageiros e companhias.

Um 'desastre' anunciado

O alerta da Ryanair não é uma surpresa. Segundo a companhia, a "deficiente" implantação do EES já se manifestou durante o verão europeu, com atrasos de duas a três horas nos controles de fronteira em aeroportos de grande movimento como Lisboa, Milão e Roma. A empresa afirma que o setor aéreo advertiu "reiteradamente" Bruxelas de que o sistema não estava pronto, aumentaria os tempos de processamento e geraria filas excessivas.

A crítica não é isolada. Em julho, o Conselho Internacional de Aeroportos (ACI), a Airlines for Europe (A4E) e a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) enviaram uma carta conjunta à presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, denunciando a "pressão insustentável" causada pela nova regra. A demanda coletiva é por mais tempo para solucionar problemas nos quiosques automatizados e adequar o pessoal.

Bruxelas entre a regulação e a realidade

Do outro lado do embate, a Comissão Europeia defende sua posição. Bruxelas argumenta que a "maioria" dos aeroportos europeus está aplicando o novo controle de maneira "fluida" e se dispõe a oferecer apoio aos mais atrasados. A postura, no entanto, ignora o apelo uníssono da indústria e coloca os Estados-membros em uma posição delicada, agora sem margem legal para evitar interrupções em períodos de alta demanda.

O impasse coloca em jogo mais do que a eficiência aeroportuária. O EES é uma peça central na estratégia de digitalização e segurança do bloco. Adiar sua implementação plena representa um revés político. Contudo, insistir em um cronograma que gera caos arrisca minar a confiança do público e prejudicar um setor de viagens ainda em recuperação. A escolha é entre a rigidez do calendário regulatório e a funcionalidade prática para milhões de pessoas.

O conflito entre a indústria e os reguladores está agora em seu ponto mais agudo. Os próximos meses servirão como um teste de estresse em tempo real para o novo sistema, cujo resultado definirá não apenas a experiência de viagem na Europa, mas também a capacidade do bloco de executar transições tecnológicas complexas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España