A ascensão de Sam Smith ao estrelato global foi calibrada por uma escolha de figurino. Em entrevista ao The New Yorker Radio Hour publicada em 11 de agosto de 2026, elx revela que os ternos usados na era de seu primeiro álbum, "In The Lonely Hour", eram uma forma de "drag". Após sofrer um ataque homofóbico em Londres aos 18 anos, Smith passou a usar menos maquiagem e adotou uma apresentação mais masculina. A mudança foi um gatilho: "portas simplesmente começaram a se abrir". Essa conformidade estética, embora estratégica, gerou uma persona pública que destoava de sua identidade. Smith, que se assumiu queer aos 10 anos e se apresentava de forma feminina na adolescência, viu-se em uma posição onde o sucesso massivo do álbum amplificou uma imagem que não lhe pertencia por completo, tornando o palco para uma "reeducação" do público cada vez maior.
A Persona e o Palco
Smith contesta ativamente a narrativa de que se assumiu publicamente apenas aos 21 anos. "Eu me assumi aos 10 e fui um gay femme desde muito, muito jovem", afirma, distinguindo sua jornada da de outros artistas. A fase dos ternos não foi uma ocultação, mas uma "experimentação em um traje diferente", um que, por acaso, destravou o acesso à indústria. O sucesso, no entanto, solidificou essa imagem. A transição de volta para uma expressão mais femme, que Smith já vivia, passou a ser vista como um ato que exigiria uma explicação pública. As gravadoras e o mercado, segundo elx, enviavam sinais sutis, associando feminilidade a algo "não talvez atraente".
A evolução se reflete na música. Se "In The Lonely Hour" foi criticado pela neutralidade de pronomes — algo que Smith atribui ao fato de ser um amor não correspondido por um homem hétero —, a canção "Him" (2017) foi uma resposta direta e afirmativa. Agora, com o novo álbum "Hazel Eyes", Smith descreve uma nova fase: um "álbum de romance queer novo e tradicional", onde canta sobre um amor que é recíproco. A capacidade de cantar sobre um homem que o ama de volta, afirma, traz um orgulho inédito à sua expressão artística.
A Arquitetura do Som
O ponto de virada para a liberdade criativa de Smith foi o sucesso de "Unholy". A canção, segundo elx, "estourou a bolha" do que o público e a indústria esperavam, quebrando a imagem de que sua maior força eram as baladas sobre desilusão amorosa. O conflito com a gravadora não era sobre lançar a música, mas sobre sua posição como primeiro single. A aposta de Smith prevaleceu, e o êxito global da faixa lhe deu "permissão para fazer o que quiser agora". Essa permissão se manifesta em "Hazel Eyes", um trabalho que Smith considera um ato de coragem por desafiar as estruturas da música pop comercial, com ganchos que surgem mais tarde nas canções e uma sonoridade mais coesa e produzida pelx própriex.
Essa exploração sonora é contínua. Smith revela que já está trabalhando em um novo disco, descrito como "mais eletro e mais intenso", enquanto "Hazel Eyes" ainda não foi lançado. Essa liberdade se estende à sua própria voz, um instrumento que, segundo elx, está mais grave e cheio, embora o volume de trabalho ao longo dos anos tenha "sacrificado notas" em seu registro. Mesmo assim, Smith continua a descobrir novas texturas e timbres, como na faixa "To Be Free", gravada na mesma semana em que mudou seus pronomes. A voz, assim como a identidade, permanece em fluxo, um território de constante exploração.
A trajetória de Smith é um estudo de caso sobre a negociação entre identidade e a máquina comercial da música. Elx não foi um produto passivo, mas um agente que usou a conformidade como ferramenta para depois poder desconstruí-la. A jornada do "drag" do terno à liberdade de "Unholy" e a profundidade de "Hazel Eyes" mostra uma artista que não apenas reivindicou sua narrativa, mas que agora a utiliza como principal motor para uma produção musical cada vez mais livre e imprevisível.
Fonte · Brazil Valley | Music




