O Santander manteve inalterada a composição de sua carteira recomendada de fundos imobiliários (FIIs) para o mês de julho, mas promoveu ajustes significativos nos pesos das posições. A movimentação reflete uma estratégia de rebalanceamento tático, reduzindo a exposição a ativos de tijolo em favor de veículos focados em crédito imobiliário, especialmente aqueles estruturados como hedge funds ou multiestratégia que operam majoritariamente com Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs).

Segundo relatório assinado pelo analista Flávio Pires, a mudança responde a uma revisão estrutural na visão do banco sobre a alocação ideal de portfólio. Enquanto no início de 2026 a recomendação era de 60% em tijolo e 40% em papel, a meta para o segundo semestre é atingir uma paridade de 50% para cada classe, consolidando uma postura mais defensiva frente ao ambiente macroeconômico atual.

A lógica por trás da transição para o papel

A decisão de elevar a alocação em fundos de papel está ancorada na expectativa de que a taxa Selic permanecerá em patamares de dois dígitos por um horizonte de tempo mais extenso do que o inicialmente previsto pelo mercado. Para o Santander, essa persistência dos juros elevados penaliza o custo de carregamento de ativos de tijolo, enquanto favorece a rentabilidade dos fundos que possuem portfólios de crédito bem estruturados e com garantias sólidas.

A leitura aqui é que, em momentos de aperto monetário prolongado, a previsibilidade de fluxo de caixa dos CRIs oferece uma camada adicional de proteção ao investidor. O banco avalia que, embora o tijolo mantenha seu valor intrínseco, os fundos de crédito tendem a apresentar maior resiliência tanto na distribuição de proventos quanto na estabilidade das cotas negociadas em bolsa.

Ajustes táticos nas posições de tijolo

É importante notar que a redução de peso em ativos como o Tellus Properties (TEPP11) e o Vinci Logística (VILG11) não reflete uma perda de confiança nos fundamentos desses veículos. Ambos continuam sendo as principais escolhas do banco para os setores de escritórios e logística, respectivamente, sustentados por taxas de ocupação superiores a 95% e pela qualidade técnica de suas gestoras.

O movimento de venda parcial, portanto, deve ser interpretado como um ajuste de gestão de risco e otimização de alocação, e não como um sinal de deterioração operacional. O banco reafirma a qualidade dos imóveis e a capacidade dessas gestoras em manter a distribuição de dividendos, mantendo a recomendação de compra inalterada para esses papéis dentro da carteira.

Implicações para o investidor e o mercado

A mudança na estratégia do Santander espelha um movimento mais amplo que vem sendo observado no mercado de capitais brasileiro. A busca por segurança em ativos de renda fixa, ainda que via fundos imobiliários, reflete a cautela de gestores institucionais com a volatilidade dos ativos reais em um cenário de incerteza fiscal e monetária.

Para o investidor pessoa física, a recomendação serve como um lembrete sobre a importância do rebalanceamento periódico. A disparidade de desempenho observada em junho, onde a carteira do banco recuou 2,3% contra 1,2% do IFIX, demonstra que mesmo as estratégias mais conservadoras estão sujeitas à pressão vendedora do mercado, exigindo disciplina na manutenção da tese de longo prazo.

O horizonte para o segundo semestre

O que permanece incerto é a duração exata desse ciclo de juros elevados e como o mercado de tijolo reagirá caso haja uma reprecificação mais severa dos ativos de risco no Brasil. A transição para 50% de exposição em cada classe sugere que o Santander busca um ponto de equilíbrio para navegar entre a proteção do crédito e o potencial de valorização futura do patrimônio imobiliário.

O desempenho acumulado de 2026, com a carteira do banco superando o benchmark, indica que as escolhas de seleção de ativos têm sido assertivas. O foco agora será observar se a maior exposição ao crédito será suficiente para blindar o portfólio caso a volatilidade do mercado de capitais se intensifique nos próximos meses.

O mercado continuará monitorando se essa migração para o papel é um movimento permanente ou se o banco voltará a aumentar sua exposição ao tijolo assim que houver sinais mais claros de descompressão na curva de juros. A estratégia, até aqui, aposta na cautela.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times