A trajetória da taxa Selic para o segundo semestre de 2026 tornou-se o principal ponto de divergência entre dois dos nomes mais influentes do mercado financeiro brasileiro. Durante painel no evento Onde Investir no 2º Semestre de 2026, Bruno Serra, gestor da família de fundos Janeiro da Itaú Asset, e Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, apresentaram diagnósticos distintos sobre a condução da política monetária pelo Banco Central.

Enquanto Serra vislumbra um cenário de alívio inflacionário que permitiria a retomada do ciclo de cortes, Mansueto defende uma postura de manutenção dos juros em 14,25%. A discordância sublinha a complexidade do momento econômico atual, marcado pela redução dos riscos externos, mas pressionado por variáveis domésticas de difícil controle.

O otimismo cauteloso da Itaú Asset

Bruno Serra baseia sua projeção de cortes na reversão dos choques de oferta que impactaram a economia global no início do ano. O ex-diretor do Banco Central argumenta que a acomodação dos preços do petróleo e seus derivados, após o pico tensionado pelo conflito no Oriente Médio, reduzirá a pressão sobre o IPCA. Para ele, o efeito líquido desse choque será limitado, permitindo que a autoridade monetária foque na desaceleração da atividade econômica doméstica.

O cenário-base da Itaú Asset projeta uma inflação de 4,6% para 2026 e uma taxa de câmbio próxima de R$ 5,10. Com esses fundamentos, Serra acredita que a Selic pode encerrar o ano entre 13% e 14%. Além da inflação mais comportada, o gestor aponta para sinais de arrefecimento no mercado de trabalho como um gatilho adicional para a flexibilização monetária nas próximas reuniões do Copom.

A resistência fiscal sob o olhar do BTG Pactual

Em contrapartida, a visão de Mansueto Almeida é pautada pela persistência da inflação de serviços e pelos riscos associados à política fiscal. O economista-chefe do BTG Pactual reconhece o alívio vindo do exterior, mas argumenta que o Brasil enfrenta um problema estrutural: a resiliência da atividade econômica alimentada por estímulos fiscais e crédito subsidiado. Para ele, essa dinâmica impede que a inflação convirja para a meta com a velocidade esperada.

O BTG trabalha com uma projeção de inflação de 5,3% para este ano, o que sustenta a tese de juros estacionados em 14,25%. Mansueto enfatiza que, sem uma surpresa consistente na queda dos índices de preços ou uma mudança significativa no cenário fiscal, não há espaço técnico para cortes. A desancoragem das expectativas de longo prazo permanece, segundo ele, como a maior barreira para qualquer movimento de flexibilização monetária no curto prazo.

Implicações para o ecossistema de investimentos

O embate entre essas duas visões reflete o dilema enfrentado pelos investidores brasileiros, que precisam calibrar suas alocações em um ambiente de incerteza sobre o custo do capital. Se a tese de Serra prevalecer, o mercado de renda variável e ativos de risco pode encontrar suporte em uma curva de juros mais benigna. Por outro lado, a manutenção da Selic em patamares elevados, defendida pelo BTG, favorece a atratividade da renda fixa e exige maior rigor na seleção de ativos dentro das carteiras.

Para o mercado, a convergência entre os dois economistas sobre o impacto do Federal Reserve e a estabilização do cenário global é um ponto de atenção. Ambos concordam que o comportamento da autoridade monetária americana será o fiel da balança para o fluxo de capitais em emergentes, o que torna a política externa um fator de risco compartilhado, independentemente da divergência interna sobre a Selic.

O que permanece no radar do mercado

A grande incógnita para os próximos meses reside na capacidade do Banco Central de equilibrar a necessidade de controle inflacionário com a realidade da atividade econômica. A eficácia dos mecanismos de transmissão da política monetária, diante de um mercado de crédito ainda aquecido pelo setor público, continuará sendo testada. O mercado aguarda, sobretudo, os próximos indicadores de emprego e o comportamento da inflação de serviços para validar qual das duas teses — a da flexibilização ou a da manutenção — se provará mais resiliente.

O desfecho dessa discussão terá repercussões diretas na precificação de ativos financeiros, no custo de financiamento das empresas e nas decisões de alocação de longo prazo dos fundos de pensão e investidores institucionais. Enquanto a divergência entre nomes de peso como Serra e Mansueto persiste, a volatilidade nas curvas de juros futuros deve se manter como uma característica central do cenário macroeconômico brasileiro para o segundo semestre.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times