A corrida pela inteligência artificial pode estar construindo um futuro com os mesmos vieses do passado. O alerta vem de Auana Mattar, CIO da TIM, para quem a discussão sobre diversidade em tecnologia precisa urgentemente mudar de foco: não se trata de quantas mulheres atuam na área, mas de quantas estão sentadas à mesa onde as decisões são tomadas.

Em entrevista ao portal TI Inside durante o Rio Innovation Week 2026, a executiva argumentou que a baixa representatividade feminina nos times que hoje moldam a IA representa um risco de negócio e de governança. A tese é direta: sem diversidade na concepção, a tecnologia resultante será inerentemente limitada e potencialmente enviesada, incapaz de servir a uma base de consumidores igualmente diversa.

Da cota à estratégia

O ponto central defendido por Mattar é que a diversidade deixou de ser uma pauta exclusiva do departamento de pessoas para se tornar um pilar estratégico. “A diversidade gera negócio”, afirmou, ressaltando que uma liderança homogênea tem uma visão limitada sobre o mercado. Para uma empresa como a TIM, que atende milhões de clientes com perfis distintos, ignorar essa pluralidade na tomada de decisão é uma falha comercial.

Nessa leitura, o viés não é um problema abstrato, mas uma falha de produto. “Se tem pouca gente na mesa, e nessa pouca gente não tem mulheres, é muito evidente que teremos algum viés ali”, pontuou a CIO. A consequência é a criação de soluções que não conversam com uma parcela significativa do público-alvo, comprometendo a competitividade e a relevância da companhia no longo prazo.

Governança e o 'viés de mesa'

Para que a mudança ocorra, a intenção precisa se converter em estrutura. Mattar defende que as empresas adotem programas específicos, metas e, crucialmente, o engajamento da alta liderança para além do discurso. Não basta contratar mais mulheres; é preciso criar mecanismos que garantam sua influência na construção de produtos e tecnologias.

Essa abordagem eleva a diversidade a uma questão de governança corporativa. As decisões sobre automação, uso de dados e os próprios algoritmos de IA têm impacto direto sobre clientes e a sociedade. Garantir que as equipes responsáveis por essa arquitetura sejam plurais é, portanto, uma forma de mitigar riscos e fortalecer a governança tecnológica da organização.

O desafio, segundo Mattar, é evitar que a nova economia digital, impulsionada por analytics e IA, repita as desigualdades de ciclos anteriores. A questão que fica no ar é se o ecossistema de tecnologia irá absorver o recado a tempo ou se as fundações da próxima grande onda de inovação serão, mais uma vez, construídas sobre um terreno pouco diverso.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside