Em um arquipélago de 18 mil habitantes e sem semáforos, uma cúpula de líderes das Ilhas do Pacífico se tornou o mais recente campo de batalha na disputa geopolítica entre Estados Unidos e China. O encontro do Fórum das Ilhas do Pacífico, sediado em Palau, deveria focar nas ameaças existenciais da região, como a crise climática e a fragilidade econômica. Contudo, a rivalidade das superpotências projetou uma sombra sobre a agenda.
Segundo reportagem da revista Fortune, o presidente de Palau, Surangel Whipps Jr., fez um apelo direto: “O Pacífico é nossa casa, não um teatro para competição geopolítica”. A realidade, no entanto, é mais complexa. A localização estratégica e os vastos recursos marítimos das nações insulares transformaram-nas em peças valiosas no xadrez global, forçando líderes locais a navegar em um ambiente de crescente polarização que ameaça a tradicional diplomacia de consenso da região, conhecida como “Pacific Way”.
O peso estratégico do paraíso
Longe de serem apenas destinos turísticos, os 18 países e territórios do Fórum controlam zonas econômicas exclusivas gigantescas, ricas em pesca e potenciais minerais submarinos. Suas posições no mapa do Pacífico são ativos cruciais à medida que as tensões entre potências aumentam. Nos últimos anos, EUA e China, além de aliados regionais como Austrália e Nova Zelândia, intensificaram a corrida por influência, oferecendo acordos de segurança, financiamento e outros benefícios para garantir alianças.
Essa competição externa está fraturando a coesão interna do bloco. Um exemplo recente, citado pelo Lowy Institute, foi a incapacidade dos ministros de Relações Exteriores do Fórum de chegar a um consenso para condenar o lançamento de um míssil balístico chinês no Oceano Pacífico. A oposição de apenas dois membros foi suficiente para paralisar a ação do grupo, evidenciando como a pressão externa pode neutralizar a capacidade de decisão coletiva em um momento crítico para a segurança regional.
Entre a diplomacia e a sobrevivência
A escolha de Palau como anfitrião acentua o conflito. O país é um dos doze no mundo que mantêm relações diplomáticas formais com Taiwan, o que atrai a ira de Pequim. Além disso, Palau possui um Pacto de Livre Associação com os Estados Unidos, que garante acesso militar americano a seu território em troca de dezenas de milhões de dólares anuais. A China tem pressionado para que a delegação de Taiwan seja excluída do evento, transformando a cúpula em um novo palco para o impasse diplomático.
Enquanto as potências medem forças, as nações do Pacífico enfrentam problemas imediatos e graves: secas e inundações causadas pelo El Niño ameaçam a segurança alimentar, e a volatilidade no preço dos combustíveis importados gera choques econômicos severos. O presidente Whipps Jr. chegou a sugerir que os países interessados na região poderiam financiar uma transição para 100% de energia renovável, uma solução pragmática que se perde em meio à disputa por hegemonia. A ausência de líderes importantes, como o do Kiribati e o das Ilhas Salomão — este último forçado a retornar a seu país por uma crise política interna —, apenas sublinha a instabilidade.
O resultado é uma cúpula onde a agenda local de sobrevivência compete com a agenda global de poder. A questão que paira sobre o Pacífico não é apenas qual superpotência ganhará mais influência, mas se o Fórum conseguirá preservar sua voz e propósito em meio a uma disputa que não é sua.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





