A Serpentine Galleries, sediada em Londres, expandiu sua programação de verão com a instalação da obra cinética 'Pénétrable BBL Jaune', do artista venezuelano Jesús Rafael Soto. A peça, composta por uma estrutura de aço que sustenta milhares de tubos amarelos, marca a primeira vez que um trabalho de Soto — falecido em 2005 — é exibido ao ar livre no Reino Unido. A instalação está localizada nos Kensington Gardens, adjacente ao Serpentine Pavilion, projetado este ano pelo estúdio mexicano Lanza Atelier.
A curadoria, liderada por Hans Ulrich Obrist, diretor artístico da Serpentine, destaca a natureza interativa da série Pénétrable. Segundo o curador, o objetivo é transformar a percepção do objeto artístico através da participação direta do público. A obra não se limita a ser contemplativa; ela exige que o espectador atravesse seus elementos, dissolvendo a barreira física entre o indivíduo e a escultura.
O legado cinético de Soto
A série Pénétrable, concebida originalmente em 1999, representa o auge da investigação de Soto sobre a vibração, a energia e a desmaterialização da massa. Para o artista, o objeto escultórico deveria deixar de ser uma entidade estática para se tornar uma experiência relacional. Obrist descreve o processo como uma tentativa de dissolver objetos em vibração, onde a obra ganha vida apenas quando o corpo do visitante interage com a estrutura suspensa.
Historicamente, a obra de Soto ocupa um lugar central na arte cinética latino-americana, embora sua presença física em espaços públicos europeus tenha sido historicamente limitada. A instalação em Londres cumpre, portanto, um papel de resgate e visibilidade para um dos nomes mais influentes de sua geração, permitindo que novas audiências experimentem a transição do objeto para a relação física.
A estratégia de ocupação do espaço público
A decisão de instalar a obra ao lado do pavilhão assinado pelo Lanza Atelier responde a uma estratégia institucional da Serpentine de integrar projetos lúdicos que atraiam diferentes faixas etárias. Desde a comissão do pavilhão de Lego de Peter Cook no ano anterior, a galeria tem buscado alternativas que desmistifiquem a arte contemporânea, tornando-a acessível e fisicamente envolvente para famílias e visitantes casuais.
Obrist enfatiza que, embora as obras não tenham sido concebidas em conjunto, existe uma convergência conceitual entre a estrutura do Lanza Atelier e a peça de Soto. Ambos os projetos propõem a desconstrução do conceito de barreira. Enquanto o pavilhão utiliza tijolos e vãos para criar passagens, a obra de Soto utiliza a suspensão de elementos para transformar uma massa sólida em um corredor permeável.
Diálogos entre arquitetura e escultura
A relação entre o pavilhão de tijolos do Lanza Atelier e a escultura cinética de Soto levanta questões sobre como a arquitetura contemporânea pode incorporar elementos de ludicidade sem perder sua integridade estrutural. A proposta de converter o que seria, em teoria, uma parede ou um sólido em um espaço de passagem é o fio condutor que une as duas intervenções no parque.
Para o ecossistema artístico, a iniciativa demonstra a eficácia de parcerias que cruzam fronteiras geográficas, trazendo a arquitetura mexicana contemporânea e o legado cinético venezuelano para o centro da discussão estética londrina. A estratégia reforça a importância da Serpentine como um hub global que não apenas exibe, mas contextualiza o diálogo entre diferentes tradições artísticas.
Perspectivas e permanência da arte interativa
O que permanece em aberto é a capacidade de tais instalações temporárias influenciarem o planejamento urbano permanente em grandes capitais. A recepção do público londrino à obra de Soto servirá como um termômetro para futuros projetos que priorizem a interatividade em detrimento da conservação tradicional de monumentos.
Observar como a manutenção dos tubos suspensos e a interação constante do público afetarão a longevidade da obra será um exercício interessante para os conservadores da galeria. A tendência de transformar parques em espaços de experimentação sensorial parece consolidada, mas os desafios logísticos de gerir fluxos intensos de pessoas em obras de arte delicadas permanecem como um ponto de atenção para os próximos ciclos de verão.
A integração de obras interativas no espaço público londrino reacende o debate sobre o papel da galeria como mediadora entre o artista e a experiência sensorial direta do espectador, transformando o parque em um laboratório a céu aberto. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





