A teórica e crítica cultural Sophie Lewis, conhecida por suas análises sobre a família nuclear e o feminismo trans-excludente, lança uma provocação ao próprio campo que habita. Em seu novo livro, “Femmephilia”, ela argumenta que a trajetória da liberação feminina ocidental cometeu um “erro gigante” ao se voltar contra “coisas de garota” — a feminilidade, o adorno, o prazer estético.

O livro, analisado em reportagem do site de arte e cultura Hyperallergic, funciona como uma correção de rota. Lewis não nega a cooptação da feminilidade pelo patriarcado, mas se recusa a entregar os pontos. A tese é que a estética “femme” contém um poder libertador intrínseco, e o trabalho do feminismo contemporâneo seria resgatá-lo, em vez de descartá-lo como inerentemente frívolo ou opressor.

A beleza em minúsculas

Para construir seu argumento, Lewis mergulha na arte e na cultura visual. Ela propõe uma distinção crucial: existe a “Beleza”, com 'B' maiúsculo, que descreve como um “deus totalitário”, e a “beleza”, com 'b' minúsculo, que seria “palpável e talvez não aprendível, longe do olhar de Apolo”. É essa segunda beleza, a sensorial e corporificada, que interessa à autora.

A análise de obras como “Skin Flick” (2019), do artista multimídia Adham Faramawy, serve de exemplo. Lewis celebra o ato de olhar como parte do projeto feminista, explorando o prazer visual não como uma armadilha, mas como um campo de possibilidades. A proposta é reencontrar o erotismo e a sensorialidade fora das molduras impostas pela vigilância patriarcal.

Reescrevendo os mitos

O método de Lewis se estende à releitura de mitos fundacionais. Histórias como a de Leda e o Cisne, frequentemente interpretadas como narrativas de estupro que normalizam a violência, ganham novas camadas. Ao analisar uma pintura perdida de Michelangelo, a autora imagina uma dinâmica mais complexa, onde a rainha de Esparta não é apenas uma vítima passiva.

“Ela poderia esmagá-lo com facilidade, ou torcer seu pescoço, se quisesse”, escreve Lewis, “mas há algo que ela quer, algo que está recebendo”. Nessa visão, a agência e o desejo feminino são recuperados, mesmo em cenários de poder assimétrico. A obra de Lewis, portanto, não é um chamado ingênuo à feminilidade, mas um convite a revisitar seus aspectos mais complexos e potentes, resgatando-os para uma agenda de liberação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic