O debate sobre o futuro das pensões na Espanha ganhou contornos mais sombrios com as declarações de Unai Sordo, secretário-geral da Confederação Sindical de Comissões Operárias (CCOO). Em um contexto de eleições gerais e discussões acaloradas sobre a sustentabilidade do sistema público, Sordo emergiu como uma voz dissonante, não contra a discussão em si, mas contra a verdade nua e crua que, segundo ele, alguns atores políticos começam a revelar.
A premissa de Sordo é clara: a adoção de um "modelo misto de pensões", onde a capitalização ganha espaço ao lado do sistema público, não é intrinsecamente ilegítima. O problema reside nas consequências que tal transição acarreta para a vasta maioria da população. Ao permitir que as pensões públicas "apenas se situem no umbral da pobreza", o sistema misto implicitamente transfere a responsabilidade pela segurança financeira na velhice para o indivíduo. Para aqueles que não possuem a capacidade de poupar ou investir, o futuro se apresenta com a perspectiva de "passar fome na velhice".
Sordo remonta a reformas passadas, como a de 2013, que, se estivesse em vigor, teria resultado em uma perda de poder aquisitivo de até 30% para os pensionistas até meados do século. A sua crítica não se limita a um partido específico, mas abrange a tendência de se diluir a responsabilidade estatal em favor da volatilidade dos mercados financeiros. A questão central, para o sindicalista, é saber se a sociedade espanhola prefere um sistema público robusto, que utilize cerca de 15% do PIB para garantir dignidade a todos, ou um sistema mais enxuto, com 12% do PIB, que resultaria em "pensões de miséria" para a maioria, com benefícios dignos apenas para quem puder capitalizar.
A fala de Sordo, proferida em Bilbao, não foi apenas um alerta, mas um convite à reflexão profunda sobre os valores que a sociedade deseja priorizar. Ao contrastar a "solidez e solvência do Estado" com a "liquidez e o imprevisível dos mercados financeiros", ele joga luz sobre a dicotomia fundamental que precisa ser debatida antes que decisões irreversíveis sejam tomadas. A discussão sobre pensões, portanto, transcende a mera gestão orçamentária; ela se configura como um debate sobre o tipo de sociedade que se almeja construir, onde a segurança e a dignidade na terceira idade são pilares essenciais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





