Em meio ao burburinho de um evento em Ho Chi Minh City, Li Zhong, presidente da Walgreens Boots Alliance para a Ásia-Pacífico, lançou um desafio à sabedoria convencional. Ele observou que, embora os Estados Unidos invistam cerca de 17% de seu PIB em saúde, um montante que ultrapassa os US$ 5,6 trilhões, a qualidade de vida e a saúde de seus cidadãos não refletem necessariamente esse dispêndio colossal. Em contraste, países do Sudeste Asiático, dedicando uma fração muito menor de seus orçamentos — como os 4,6% do Vietnã —, parecem alcançar uma saúde mais robusta, mesmo que a longevidade média possa ser menor. A tese de Li é clara: prolongar a vida a qualquer custo não é sinônimo de uma vida saudável, e o modelo americano, com suas terapias de ponta, não deve ser a bússola para as nações asiáticas em desenvolvimento. Esta perspectiva surge em um momento crucial, quando a região se esforça para construir sistemas de saúde mais resilientes, diante do aumento dos custos e da escassez de médicos especialistas.
Um modelo de saúde sob escrutínio
A disparidade no investimento em saúde entre os EUA e o Sudeste Asiático levanta questões fundamentais sobre a eficácia e a sustentabilidade dos diferentes modelos. Enquanto os americanos desfrutam de acesso a tratamentos que salvam vidas, a qualidade da saúde geral e o bem-estar diário parecem ser negligenciados. Li Zhong enfatiza que a busca por uma vida mais longa não deve comprometer a qualidade de vida durante esses anos adicionais. A crítica ao modelo americano não é um ataque à inovação, mas um alerta contra a adoção cega de um sistema que, apesar de seus avanços médicos, pode gerar um ônus financeiro insustentável e não necessariamente traduzir-se em uma população mais saudável. A diversidade de cada país na região, ele argumenta, exige rotas próprias, em vez de uma referência automática ao caminho trilhado pelos Estados Unidos.
Desafios regionais e novas abordagens
O Sudeste Asiático enfrenta seus próprios desafios complexos. O rápido envelhecimento populacional em países como Tailândia, Malásia, Singapura e Indonésia sinaliza um aumento iminente de doenças crônicas. A escassez de especialistas agrava a situação, com a Indonésia, por exemplo, apresentando um índice de apenas 0,2 especialista por mil habitantes, significativamente menor que os 0,5 de Malásia e Tailândia, e 1,2 de Singapura. David Utama, diretor-presidente da Siloam Hospitals, a maior rede privada da Indonésia, reconhece a gravidade do problema. Essa realidade impulsiona a busca por modelos mais eficientes e acessíveis, que vão além do hospitalocêntrico tradicional e se aproximam das comunidades.
A ascensão da atenção primária e o papel das farmácias
Em resposta a esses desafios, operadores de saúde na Ásia estão cada vez mais voltados para o cuidado comunitário. Redes como a IHH Healthcare, com sede em Singapura e Malásia, expandem suas clínicas de atenção primária, oferecendo serviços ambulatoriais e diagnósticos próximos aos moradores. A Siloam Hospitals, na Indonésia, segue a mesma linha, construindo um ecossistema de clínicas de atenção primária para complementar seus hospitais. Li Zhong, da WBA, sugere que as farmácias podem desempenhar um papel ainda maior, citando o modelo britânico NHS Pharmacy First, que permite avaliações clínicas e tratamento para condições comuns diretamente nas farmácias. Essa abordagem, ele argumenta, é mais custo-eficiente, desde que os farmacêuticos estejam adequadamente treinados para assumir essas novas responsabilidades.
Tecnologia e parcerias como futuro
Ambos os especialistas concordam que a colaboração entre o setor público e o privado, aliada ao avanço da tecnologia, como a inteligência artificial (IA), são as chaves para oferecer cuidados de saúde acessíveis e de alta qualidade. Utama, da Siloam Hospitals, destaca que o governo possui o acesso e a escala, enquanto o setor privado contribui com capacidade, inovação e agilidade. A Siloam Hospitals, por exemplo, está investindo em IA para criar "digital twins" de pacientes, médicos e hospitais, visando aprimorar a análise de dados e a previsão de eventos críticos, como a capacidade de prever quedas de pacientes em UTIs com 30 minutos de antecedência. Essa adoção tecnológica é vista como essencial para "saltar" etapas no desenvolvimento do sistema de saúde, garantindo um futuro mais promissor para a população.
Fica a pergunta: será que o Sudeste Asiático conseguirá forjar um caminho único, que combine eficiência, acessibilidade e bem-estar, afastando-se das armadilhas financeiras e de saúde do modelo americano, e abraçando um futuro onde a tecnologia e a comunidade andam de mãos dadas?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





