Por 28 anos, a Telefónica, como operadora histórica das linhas telefônicas na Espanha, arcava com o ônus do Serviço Universal de Telecomunicações. Essa obrigação garantia a todos os cidadãos, independentemente da localização geográfica, o acesso a um conjunto mínimo de serviços de telecomunicações com qualidade e preço acessíveis. Essa rede de segurança, que prioriza o direito de acesso à comunicação, está com os dias contados.

O Ministério da Transformação Digital espanhol redigiu uma ordem que, a partir de 1º de janeiro de 2027, encerra a designação da Telefónica como prestadora exclusiva desse serviço. A justificativa reside no "excelente nível de cobertura de redes de fibra óptica" e 5G, que, segundo o Ministério, já garantem o acesso a serviços de "muito alta capacidade para todo o território nacional". Dados recentes indicam que a fibra óptica alcança 95,92% dos lares espanhóis, com quase 95% dessas conexões oferecendo capacidade gigabit, mesmo em áreas rurais.

O Fim de um Ciclo Obrigatório

A obrigatoriedade do Serviço Universal surgiu como uma salvaguarda para assegurar que mesmo as regiões economicamente menos atrativas tivessem acesso a serviços de telecomunicações essenciais. Inicialmente, o foco era a linha telefônica fixa, evoluindo para incluir internet de 1 Mbps e, posteriormente, a meta de 100 Mbps. Com a diminuição da relevância das chamadas de voz, as cabines telefônicas foram gradualmente removidas do escopo. A Telefónica era a única a assumir essa incumbência, pois, diante da falta de rentabilidade em zonas remotas, nenhum outro operador se apresentava como candidato. O custo líquido para o setor, financiado por operadoras com faturamento superior a 100 milhões de euros anuais, caiu de 21,43 milhões de euros em 2012 para 8,64 milhões em 2021, segundo a CNMC.

Um Novo Cenário de Responsabilidades

A nova ordem ministerial, ainda em fase de audiência pública, distribui a responsabilidade pelo atendimento das solicitações de conexão mínima entre todos os operadores com cobertura nas respectivas áreas. A legislação prevê um aumento no padrão de serviço mínimo, com 100 Mbps de download e 5 Mbps de upload, superando os 10 Mbps atuais. Essa elevação posicionaria a Espanha como pioneira na Europa em termos de velocidade mínima garantida. A Comissão Nacional dos Mercados e da Concorrência (CNMC) já aprovou a medida, incluindo descontos para a população vulnerável, como beneficiários do Ingreso Mínimo Vital.

Implicações para o Mercado e Consumidores

A transição do modelo de prestador único para um sistema distribuído entre múltiplos operadores visa reforçar a liberdade de escolha do consumidor. No entanto, a CNMC levanta preocupações sobre a viabilidade de prestar serviços em áreas com custos de implantação elevados, sugerindo a necessidade de estudar subsídios públicos para esses casos pontuais. Embora a obrigação principal da Telefónica seja encerrada, a empresa manterá a responsabilidade pelo abono social para aposentados e pensionistas de baixa renda, um compromisso herdado de acordos anteriores.

Perguntas em Aberto e o Futuro

Apesar da garantia de cobertura e do aumento do padrão de serviço, persistem dúvidas sobre a efetiva aplicação e fiscalização do novo modelo, especialmente em regiões de difícil acesso. A capacidade de os consumidores exercerem plenamente sua liberdade de escolha e a garantia de que as operadoras cumprirão as novas exigências de velocidade e qualidade em todas as áreas sob sua cobertura são pontos cruciais a serem observados. A transição marca um avanço significativo na infraestrutura de telecomunicações espanhola, mas a consolidação de seus benefícios dependerá da execução e do acompanhamento contínuo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka