O governo espanhol deu sinal verde para um projeto de infraestrutura energética de grande porte: a construção de uma central hidrelétrica de bombeamento em Güímar, na ilha de Tenerife. Com um investimento estimado em €1 bilhão, a obra será conduzida pela Red Eléctrica (REE), operadora do sistema elétrico do país. A decisão, aprovada pelo Conselho de Ministros, consolida um plano que vinha sendo discutido há sete anos.

O movimento é mais do que um simples aporte de capital em infraestrutura. Trata-se de uma intervenção estatal estratégica para resolver um dos quebra-cabeças mais complexos da transição energética: a estabilidade de redes elétricas isoladas, como as de ilhas, que enfrentam alta intermitência de fontes renováveis como a solar e a eólica. O projeto em Tenerife espelha uma iniciativa similar em Gran Canaria, indicando uma tese de investimento público consistente para as Ilhas Canárias.

A lógica da bateria de água

Uma usina hidrelétrica de bombeamento funciona, na prática, como uma bateria em escala monumental. Em momentos de excesso de geração de energia renovável — como em dias de muito sol ou vento —, a eletricidade excedente é usada para bombear água de um reservatório inferior para um superior. Quando a demanda por energia aumenta ou a geração renovável cai, a água é liberada, movendo turbinas para gerar eletricidade de forma rápida e controlada. É uma solução tecnológica consolidada para o problema do armazenamento de energia.

Para Tenerife, os números são expressivos. O governo espanhol estima que a central poderá suprir um terço da demanda elétrica da ilha, gerando uma economia de cerca de €200 milhões anuais na fatura de energia. O principal benefício, contudo, é habilitar uma maior penetração de fontes renováveis no sistema, garantindo a estabilidade da rede e acelerando a descarbonização.

Dividendo duplo: energia e ambiente

O projeto de Güímar carrega uma segunda camada de valor. A infraestrutura será construída em uma área degradada por décadas de extração ilegal de áridos, o que significa que o investimento terá também um papel de regeneração ambiental. Essa abordagem de “infraestrutura verde” cria um dividendo duplo, combinando a necessidade energética com a recuperação de um passivo ecológico, um argumento poderoso para garantir apoio público e mitigar resistências locais.

A iniciativa do governo espanhol sinaliza um reconhecimento de que a transição energética, especialmente em geografias complexas, não pode depender apenas do capital privado. Projetos de alta complexidade e longo prazo de maturação como este exigem um direcionamento estatal claro e, em muitos casos, o próprio Estado como investidor-âncora. O modelo adotado nas Canárias pode servir de inspiração para outras economias insulares e sistemas isolados que buscam conciliar segurança energética e metas climáticas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España