A busca incessante pelo equilíbrio entre a vida profissional e pessoal tornou-se um dos dogmas mais desgastantes do ambiente corporativo moderno. Para Thasunda Brown Duckett, CEO da gigante de planejamento previdenciário TIAA, esse conceito não apenas falha em oferecer paz de espírito, mas atua como uma mentira estrutural que prejudica o desempenho e o bem-estar dos líderes. Em um relato recente ao podcast Titans and Disruptors of Industry, da Fortune, a executiva compartilhou o momento de ruptura que a forçou a repensar sua trajetória.

O ponto de virada ocorreu durante seus anos no JPMorgan Chase, onde ocupava a liderança do Chase Consumer Banking. Após uma jornada exaustiva e um longo trajeto de volta para casa, Duckett desabou em um terminal rodoviário, confrontada pela ausência constante na vida de seus filhos. Foi a provocação direta de seu marido — que sugeriu que, se a dinâmica não funcionava para a família, ela deveria simplesmente pedir demissão — que a obrigou a abandonar a culpa paralisante e buscar uma nova lógica para gerenciar suas responsabilidades.

A falácia da balança perfeita

A ideia de que é possível manter uma divisão equitativa entre trabalho e vida pessoal ignora a realidade da escassez de tempo. Duckett argumenta que o esforço para equilibrar essas esferas gera uma sensação contínua de fracasso, pois o profissional sente que está negligenciando todas as áreas simultaneamente. A pressão por atingir cem por cento de dedicação em cada frente é, na prática, uma impossibilidade matemática que leva ao esgotamento físico e emocional.

Historicamente, o modelo de sucesso corporativo exigiu uma entrega absoluta que muitas vezes desconsiderou a complexidade das vidas fora do escritório. Ao tentar reconciliar essas duas realidades, profissionais de alta performance acabam vivendo sob uma tensão constante, onde o sucesso no trabalho é frequentemente interpretado como uma derrota no ambiente doméstico. A mudança de perspectiva proposta pela CEO da TIAA sugere que o problema reside menos na carga horária e mais na expectativa de perfeição que o termo 'equilíbrio' carrega.

O portfólio como estratégia de gestão

Ao aplicar sua experiência no mercado financeiro à própria vida, Duckett passou a enxergar seu tempo como um 'portfólio diversificado'. Nessa abordagem, a energia não é distribuída de forma igualitária, mas alocada de maneira intencional, reconhecendo que os recursos são finitos. Se um profissional possui apenas cem por cento de energia total, tentar investir cem por cento em cada área da vida é uma estratégia de alocação inviável.

Essa mentalidade permite que a executiva aceite que, em determinados períodos, certas áreas receberão menos atenção do que outras, sem que isso signifique falha. Ao tratar a vida com a lógica de um investidor que lida com a volatilidade do mercado, ela consegue ser mais presente nos momentos em que sua atenção é de fato exigida. O foco deixa de ser a busca por um estado estático de equilíbrio e passa a ser a gestão consciente das prioridades conforme as condições mudam.

Implicações para a liderança moderna

A transição para o modelo de portfólio diversificado desafia a cultura de 'presencialismo' e a expectativa de disponibilidade total que ainda domina grandes organizações. Para os líderes, isso implica uma mudança na forma como avaliam o desempenho de suas equipes, priorizando resultados e impacto em vez de horas dedicadas. A transparência sobre as limitações individuais pode, inclusive, humanizar o ambiente de trabalho, permitindo que outros profissionais também busquem formas mais sustentáveis de gerenciar suas carreiras.

No cenário brasileiro, onde a cultura corporativa ainda valoriza o esforço bruto, a adoção de uma postura de alocação intencional pode ser um diferencial estratégico para reter talentos. Empresas que compreendem que seus colaboradores possuem outras responsabilidades vitais fora da organização tendem a criar ambientes menos propensos ao burnout, garantindo uma longevidade maior para seus quadros de liderança e especialistas.

O futuro da gestão de carreira

Embora a metáfora do portfólio ofereça uma alternativa prática, a transição exige um nível de autoconhecimento que nem todos os profissionais estão prontos para exercer. A capacidade de renunciar a certas expectativas sociais e aceitar a 'volatilidade da vida' sem o peso da culpa é um processo contínuo que não se resolve com uma única mudança de mentalidade.

O que permanece em aberto é se essa abordagem, vinda de uma executiva de alto escalão, será absorvida pelas estruturas organizacionais ou se continuará sendo vista como uma escolha individual de sucesso. Observar como as novas gerações de líderes incorporarão essa flexibilidade será fundamental para entender a próxima fase da cultura de trabalho global.

Adotar a própria humanidade como variável de sucesso pode ser, afinal, a forma mais eficiente de manter o ritmo em uma carreira de longo prazo, onde o objetivo final não é apenas a produtividade, mas a sustentabilidade da própria trajetória.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune