A Coexphal, associação que representa mais de uma centena de empresas e 11 mil agricultores do sul da Espanha, está demandando a suspensão do acordo comercial entre a União Europeia e o Marrocos. A organização alega que o país africano não cumpre as cláusulas do pacto, gerando uma competição predatória que afeta diretamente a produção europeia, em especial a de tomates.

Segundo reportagem da Forbes España, o descontentamento vai além da economia. Os produtores se sentem usados como “moeda de troca” em um jogo geopolítico onde Bruxelas parece priorizar a estabilidade de fronteiras e a cooperação em segurança com o Marrocos, em detrimento da sustentabilidade de seu próprio setor agrícola. A leitura é que a agricultura virou um custo colateral aceitável para manter a parceria estratégica.

Um campo de jogo desigual

A principal queixa dos produtores espanhóis reside na assimetria da competição. De um lado, agricultores europeus submetidos a custos trabalhistas elevados e a uma rigorosa legislação ambiental e fitossanitária. Do outro, um produto marroquino que, segundo a Coexphal, não apenas se beneficia de custos de produção mais baixos, mas também entra no mercado comum sem o devido cumprimento das cotas de exportação e tarifas previstas no acordo.

Essa disparidade cria o que a associação chama de “concorrência desleal”. O gerente da Coexphal, Luis Miguel Fernández, aponta que é extremamente difícil competir com um tomate “muito mais barato, que não cumpre nenhum requisito ambiental e põe em risco a saúde do consumidor”. O movimento sugere que, para os produtores, o acordo atual não é sobre livre comércio, mas sobre uma vantagem competitiva artificialmente concedida ao Marrocos.

Geopolítica versus soberania alimentar

O pano de fundo da disputa é a tensão entre os interesses macro da União Europeia e a sobrevivência de um setor estratégico. A Coexphal argumenta que a insistência em manter e possivelmente ampliar o acordo com o Marrocos está “sacrificando” a capacidade produtiva do continente. O exemplo da drástica redução no cultivo de tomate e feijão-verde é usado como um alerta para o futuro de outras culturas, como pepino e abobrinha.

A preocupação central é com a soberania alimentar. Ao se tornar dependente de importações de países com padrões produtivos e regulatórios distintos, a Europa estaria, na visão dos agricultores, abrindo mão da segurança de seu abastecimento. A defesa de um modelo baseado em rastreabilidade, controles sanitários e condições de trabalho dignas não é um luxo, argumentam, mas a garantia de alimentos seguros para os cidadãos europeus.

O conflito entre os produtores espanhóis e as instituições europeias expõe uma falha estrutural no coração da política comercial do bloco. A questão que fica no ar é se a União Europeia está disposta a pagar o preço de sua própria desindustrialização agrícola em nome de alianças geopolíticas, e quais serão as consequências de longo prazo para sua autonomia alimentar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España