“Um mau uísque precisa dela, e um bom uísque a merece.” A frase, atribuída a Manuel L. Barragán Escamilla, que comandou a engarrafadora da Topo Chico em 1926, encapsula a mística que sempre cercou a água mineral de Monterrey. Nascida em 1895, em pleno porfiriato mexicano, a marca atravessou mais de um século como um segredo bem guardado do norte do México, cultuada por sua efervescência distinta e sua garrafa de vidro de design clássico.

Sua transformação de ícone regional em fenômeno global é, no entanto, uma história recente. Em 2017, a The Coca-Cola Company pagou US$ 220 milhões pelos direitos da marca nos Estados Unidos, apostando que a autenticidade da Topo Chico poderia cativar um mercado saturado. A aposta deu certo, e a água do Cerro del Topo Chico virou objeto de desejo de Austin a Nova York.

A lenda e a garrafa

O apelo da Topo Chico reside em sua narrativa. O nome vem da colina onde sua fonte brota, e a lenda local remonta ao imperador asteca Moctezuma I. Reza a história que sua filha, gravemente doente, foi curada ao beber das águas borbulhantes daquele manancial. Embora sem qualquer comprovação científica, esse folclore conferiu à marca uma aura de autenticidade que o marketing moderno dificilmente consegue fabricar.

Essa herança cultural, combinada com um design que pouco mudou em décadas, criou uma base de consumidores leais, primeiro entre a comunidade mexicana nos EUA e depois entre hipsters e foodies. A Coca-Cola não comprou apenas uma fonte de água; adquiriu um artefato cultural com uma história pronta para ser contada em escala global.

O poder da distribuição

A aquisição pela Coca-Cola foi o catalisador que transformou o culto em mercado de massa. A marca, que antes chegava aos EUA de forma limitada, passou a ocupar prateleiras de grandes redes em mais de 30 estados, posicionada como uma alternativa premium a nomes como Perrier e San Pellegrino. A gigante de Atlanta soube preservar o charme da marca, evitando uma modernização excessiva que poderia diluir seu apelo.

O movimento foi estratégico: em vez de criar um concorrente do zero, a Coca-Cola cooptou um produto com credibilidade orgânica. A expansão incluiu até mesmo a entrada no mercado de hard seltzers, mostrando a versatilidade da marca para se adaptar às tendências de consumo americanas sem perder sua identidade original.

Hoje, a Topo Chico vive uma dualidade fascinante. É, ao mesmo tempo, a água da lenda asteca e um ativo no portfólio de uma multinacional que recentemente acertou um pagamento de mais de 2,5 bilhões de pesos ao fisco mexicano. A pureza da fonte e a pragmática planilha corporativa, convivendo na mesma garrafa.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX