Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, conhecidos como Treasuries, atingiram níveis não vistos em mais de duas décadas. Na última quarta-feira, o Treasury de 10 anos, um referencial global, alcançou sua máxima desde abril de 2002, enquanto o título de 30 anos, crucial para o mercado hipotecário, registrou 5,7041%, o maior patamar desde maio do mesmo ano. Marina Valentini, estrategista de mercados globais do JPMorgan Asset Management, aponta que patamares de 5% para os Treasuries devem se consolidar como um "novo novo normal" nos mercados financeiros globais.

Segundo Valentini, este cenário difere do período pré-crise financeira de 2008. Atualmente, observa-se um endividamento governamental mais elevado, associado a uma produtividade crescente e um crescimento econômico mais robusto, fatores que exercem pressão sobre a parte longa da curva de juros. Apesar dessa pressão, a estrategista não antecipa que os rendimentos retornem aos níveis históricos pré-crise, que em média giravam em torno de 6,8%, e considera improvável uma escalada acima de 6% no cenário base. No Brasil, a alta dos Treasuries já pressiona a curva de juros futuros, limitando o espaço para cortes adicionais na taxa Selic. Contudo, o câmbio tem demonstrado resiliência; o dólar à vista acumula uma desvalorização de cerca de 4% frente ao real no ano, enquanto o índice DXY, que mede a força do dólar contra seis moedas fortes, já ultrapassou os 100 pontos. A sustentação do real é atribuída ao diferencial de juros entre Brasil e EUA, próximo de 10 pontos percentuais, com as eleições brasileiras emergindo como um driver fundamental para os ativos domésticos.

O "Novo Novo Normal" dos Juros Americanos

A ascensão dos rendimentos dos Treasuries ao longo de 2023 reflete uma mudança nas expectativas da política monetária americana. O mercado, que inicialmente precificava cortes de juros, agora vislumbra possíveis altas em 2026 e 2027. Fatores como o conflito no Oriente Médio, o aumento na emissão de dívida por empresas de tecnologia e preocupações fiscais e de credibilidade também contribuem para a pressão na parte longa da curva. Adicionalmente, a persistência da alta nos preços do petróleo, com o Brent próximo de US$ 100 o barril, adiciona uma camada de incerteza. Valentini reitera que o "novo novo normal" se caracteriza por países mais endividados, mas com produtividade e crescimento econômico mais fortes, um contraste com o período de juros próximos de zero e inflação baixa que marcou a era pós-crise financeira até 2020.

Mecanismos e Implicações da Alta dos Juros

As recompras de Treasuries anunciadas pelo governo americano em agosto, embora tenham gerado um efeito pontual de queda nos rendimentos, não devem ser suficientes para uma reversão sustentável. O Tesouro demonstrou disposição em usar novas ferramentas para gerenciar a volatilidade, mas a resiliência da economia e dos fundamentos corporativos americanos sugere que o país suporta patamares de juros mais elevados. Uma alta mais gradual seria o cenário ideal para evitar volatilidade excessiva no mercado de renda fixa. A normalização do Estreito de Ormuz e a consequente queda nos preços do petróleo são vistos como cruciais para um alívio duradouro nos rendimentos. O JPMorgan projeta o Brent em torno de US$ 90 no fim do ano, com potencial queda para US$ 80 em meados de 2027, embora ainda acima dos níveis pré-conflito.

Impacto Global e no Brasil: Inflação, Fed e Eleições

No cenário inflacionário, a inflação cheia nos EUA deve permanecer acima de 3% até o fim do ano, mas a inflação núcleo tende a diminuir gradualmente, impulsionada pela normalização de aluguéis e seguros de automóveis. A alta dos preços de energia é um ponto de atenção, mas uma queda no preço do petróleo poderia aliviar as pressões. O Federal Reserve (Fed) monitora de perto a inflação, e uma nova alta de juros em dezembro é possível, mas o juro deve se estabilizar em 2027. No Brasil, o crescimento econômico desacelerou, e a inflação, embora com algum alívio, ainda preocupa e permanece acima da meta, gerando incertezas sobre futuros cortes na Selic. A renda fixa brasileira sente o impacto da alta global dos juros. No mercado de ações, o foco tem sido nas eleições, que exercem maior influência sobre a Bolsa do que as dinâmicas de juros.

Câmbio e Juros: O Papel do Diferencial e das Eleições

A resiliência do real frente ao dólar, apesar da alta dos Treasuries, é explicada pelo expressivo diferencial de juros entre Brasil e EUA, que oferece um suporte significativo à moeda brasileira. Enquanto o dólar fortaleceu-se globalmente, impulsionado pela perspectiva de juros mais altos nos EUA e pelo seu status de moeda de refúgio em tempos de conflito, o real se beneficiou de fatores domésticos. As eleições brasileiras tornaram-se o principal motor de curto prazo para o real, superando a influência direta dos movimentos externos de juros. A dinâmica do câmbio, portanto, é uma combinação complexa de política monetária internacional, tensões geopolíticas e fatores políticos internos.

O cenário de juros elevados nos Estados Unidos e a volatilidade geopolítica apresentam um desafio contínuo para os mercados globais. A capacidade do Brasil de navegar por essas águas turbulentas dependerá da gestão de suas políticas econômicas internas e da evolução do cenário eleitoral. A interação entre o diferencial de juros, a inflação e os fluxos de capital continuará a moldar o comportamento do real e da curva de juros brasileira nas próximas semanas e meses.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times