O trem que conecta a estação de Buenavista, na Cidade do México, ao Aeroporto Internacional Felipe Ángeles (AIFA) revelou uma dinâmica urbana inesperada nos seus primeiros meses de operação. Embora projetado para servir como o principal elo logístico do complexo aeroportuário, o ramal ferroviário de 41,68 quilômetros tem sido ocupado majoritariamente por estudantes e trabalhadores residentes no Estado de México, que utilizam a infraestrutura para seus deslocamentos diários, ignorando, em grande parte, a função de terminal de passageiros aéreos.
Segundo reportagem da Expansión MX, o contraste é visível nos vagões: espaços destinados a bagagens permanecem vazios, enquanto os assentos são tomados por passageiros sem malas, que buscam uma alternativa mais segura e previsível ao transporte rodoviário da região. Para muitos, o trem representa uma mudança drástica na qualidade de vida, permitindo trajetos mais curtos e, sobretudo, livres da insegurança crônica das vans e micro-ônibus que operam no entorno.
O papel da infraestrutura na segurança pública
A adoção do trem pelos moradores locais reflete uma falha histórica na oferta de transporte público de qualidade na periferia da capital mexicana. Municípios como Tultitlán e Coacalco, densamente povoados, sofrem com a precariedade das vias, frequentemente afetadas por inundações e altos índices de criminalidade. Para o usuário médio, a escolha pelo trem transcende a conveniência de uma viagem ao aeroporto; trata-se de uma estratégia de sobrevivência e otimização do tempo.
Vale notar que, em períodos de chuvas intensas, o sistema ferroviário demonstrou resiliência, posicionando-se como a única via viável para a mobilidade regional. Essa demanda reprimida sugere que a infraestrutura, embora carregue o nome de um aeroporto, atua, na prática, como uma linha de trem suburbano de alta relevância social, preenchendo um vazio de mobilidade urbana que precede a própria existência do terminal aeroportuário.
Mecanismos de precificação e o desafio da sustentabilidade
Atualmente, o serviço opera com uma tarifa promocional de 45 pesos para o trajeto completo, mas o modelo enfrenta um teste de viabilidade iminente. O plano tarifário prevê um reajuste para 110 pesos, o que poderá impactar a base de usuários que hoje utiliza o trem por ser uma opção mais econômica que os serviços de transporte por aplicativo, como Uber ou Didi. A grande questão é como a operadora equilibrará a rentabilidade social — atendendo à demanda dos moradores — com a eficiência necessária para passageiros de voos.
Especialistas do setor aéreo, como Rosario Avilés, sugerem que a solução para essa convivência seria a implementação de serviços diretos e dedicados. A proposta envolve horários fixos e vagões equipados para o fluxo de passageiros de aviação, diferenciando o serviço aeroportuário do transporte regional, sem que um anule a necessidade do outro. A coexistência desses dois públicos exige uma gestão de frota mais sofisticada do que a atual.
Tensões entre stakeholders e o futuro da mobilidade
A tensão entre a função social do trem e a sua vocação aeroportuária coloca em xeque o planejamento da obra. Enquanto o AIFA ainda opera longe de sua capacidade máxima — movimentando pouco mais de sete milhões de passageiros anuais frente a uma meta de 20 milhões —, o trem provou ter uma utilidade imediata para o entorno. Reguladores e gestores enfrentam o desafio de definir tarifas preferenciais para grupos vulneráveis, como idosos e estudantes, sob risco de perder a base de usuários que, hoje, sustenta a ocupação da linha.
Para o ecossistema de mobilidade, o caso do AIFA serve como um lembrete de que grandes projetos de infraestrutura raramente atendem apenas ao propósito original. A integração com as zonas residenciais periféricas acaba por ditar o sucesso operacional do equipamento, transformando a lógica de transporte de uma conexão ponto-a-ponto para um sistema de rede regional.
Perspectivas e incertezas operacionais
O que permanece incerto é se a demanda dos moradores se manterá após o fim da tarifa promocional. A disposição de pagar o valor real de 110 pesos será o divisor de águas entre o trem como uma necessidade diária ou apenas uma comodidade ocasional. A observação dos próximos meses será crucial para entender a elasticidade dessa demanda.
Além disso, a possível criação de um serviço direto, com horários mais rigorosos, pode ser o caminho para que o AIFA, enfim, cumpra seu papel de hub, sem que isso implique o abandono das comunidades que hoje dependem do trem para transitar com segurança. A evolução dessa infraestrutura continuará sendo um termômetro da integração entre o planejamento estatal e as necessidades reais da população metropolitana.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Expansión MX





