No universo automotivo, repleto de narrativas sobre a escala e a eficiência de Detroit, uma história singular de excesso e engenhosidade foi escrita no Brasil. Por 36 anos, a Tropical Cabines, uma empresa de Marechal Cândido Rondon, no Paraná, e depois em Biguaçu, Santa Catarina, especializou-se em pegar picapes americanas já grandes, como a Ford F-1000 e a Chevrolet C-10, e transformá-las em veículos colossais que as próprias fabricantes não ousavam produzir. Em 2021, a operação cessou, não por falta de demanda, mas por um evento fora de seu controle.

A trajetória da Tropical Cabines é um estudo de caso sobre a identificação de um nicho de mercado e, ao mesmo tempo, uma advertência sobre os riscos de construir um negócio sobre a plataforma de um único e poderoso fornecedor. Segundo uma detalhada reportagem do site americano The Autopian, a empresa que chegou a produzir mais de 9.000 veículos customizados viu seu fim ser decretado pela decisão da Ford de encerrar a produção de caminhões em sua fábrica de São Bernardo do Campo (SP) em 2019, cortando o suprimento essencial para suas criações.

A engenharia do excesso

Tudo começou em 1985 com uma necessidade prática. Um fazendeiro procurou a oficina, então uma metalúrgica, com um pedido: transformar sua Ford F-1000 de cabine simples em um veículo com cabine dupla, capaz de transportar sua família. Na época, as montadoras no Brasil não ofereciam essa configuração para suas picapes maiores. A Tropical Cabines preencheu essa lacuna, inicialmente com trabalho artesanal em metal, estendendo chassis e adicionando um segundo par de portas a modelos da Ford e da Chevrolet.

O ponto de inflexão veio em 1999, quando a empresa modernizou seu processo produtivo, adotando a fibra de vidro em larga escala. A mudança permitiu uma liberdade de design que levou a criações ainda mais audaciosas. Nasceu a Tropivan, um SUV de oito passageiros baseado na Ford F-250, essencialmente uma versão brasileira e não-oficial do Ford Excursion. A ousadia atingiu o ápice com o Tropiclassic: um sedã de cinco lugares construído sobre o chassi de uma F-250, que bizarramente enxertava a traseira de um Ford Focus, redimensionada para caber na carroceria massiva do caminhão. Eram veículos que desafiavam a lógica, mas encontravam um público disposto a pagar pela exclusividade e pelo espaço.

O ápice e a dependência fatal

No auge de sua ambição, a Tropical Cabines lançou o F-Maxx, um veículo que a empresa anunciava como a maior picape do Brasil. Baseado no chassi do caminhão médio Ford F-12000, o F-Maxx era uma demonstração de força. As últimas versões, com preços que se aproximavam de US$ 300.000, ofereciam um nível de luxo comparável a sedãs executivos: seis assentos individuais em couro, múltiplos tetos solares, sistema de entretenimento e um motor Cummins de 6.7 litros com 400 cavalos de potência. A empresa não vendia apenas tamanho, mas status e conforto em uma escala superlativa.

Contudo, o modelo de negócio da Tropical Cabines carregava uma vulnerabilidade estrutural. Sua existência dependia inteiramente do fluxo de chassis e cabines fornecidos principalmente pela Ford. Embora também modificasse modelos da Chevrolet e da Dodge Ram, a Ford era seu pilar. Quando a montadora americana, em uma reestruturação global, decidiu fechar sua histórica planta de caminhões no ABC Paulista, o destino da customizadora catarinense foi selado. Sem a matéria-prima, a linha de produção que criava monstros sob medida ficou em silêncio.

A história da Tropical Cabines é um fascinante capítulo da indústria nacional. Ela representa a criatividade e a capacidade de adaptação para atender a demandas que os grandes players ignoram. Ao mesmo tempo, serve como uma parábola sobre os perigos da dependência de ecossistema. Num mundo onde negócios digitais são construídos sobre as APIs de big techs, a lição da oficina que esticava picapes permanece surpreendentemente atual: construir sobre a plataforma de um gigante oferece alcance e escala, mas o poder de desligar o interruptor nunca está em suas mãos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Autopian