Uma nova frente na guerra comercial de Donald Trump, desta vez mirando o Canadá, está gerando mais do que tensões diplomáticas: está criando um campo minado político para seu próprio partido. Com a iminência de eleições de meio de mandato, a decisão de impor novas tarifas sobre US$ 20 bilhões em importações canadenses — e a promessa de retaliação de Ottawa — expõe um racha profundo entre a retórica presidencial e a realidade econômica de estados republicanos cruciais.

A medida, parte da plataforma “America First”, coloca em risco cadeias de suprimentos e eleva preços para consumidores que já demonstram insatisfação com a gestão econômica, segundo uma reportagem da revista Fortune. O epicentro do problema está em estados fronteiriços como Maine, Michigan e Ohio, onde a economia local depende intrinsecamente do comércio com o vizinho do norte e onde o controle do Senado americano pode ser decidido.

O dilema do fogo amigo

A reação dentro do Partido Republicano foi imediata e crítica. A senadora Susan Collins, do Maine, uma das principais democratas na mira este ano, classificou a imposição de tarifas como “um erro”, citando o impacto direto sobre produtos vitais para seu estado, como lagosta, mirtilos e madeira. A questão reverbera em Michigan, onde um terço das exportações cruza a fronteira norte, e em Ohio, outro estado com forte intercâmbio comercial.

O dilema, como apontou Marc Short, ex-assessor do vice-presidente Mike Pence, é claro: parlamentares republicanos não querem “incorrer na ira do presidente”, mas sentem a pressão de suas bases eleitorais para defender os interesses locais. Do outro lado, os democratas aproveitam a oportunidade. “Trump está escalando uma guerra comercial com o Canadá por sua própria vaidade”, afirmou Abdul El-Sayed, candidato democrata em Michigan, pintando seu oponente como um mero executor das políticas do ex-presidente.

Mensagens cruzadas em Washington

A dissonância não está apenas entre a Casa Branca e o Congresso, mas dentro da própria administração. Enquanto Trump usava sua plataforma Truth Social para atacar o Canadá — “Eles precisam de nós!” — e ameaçar tarifas de 50% sobre automóveis e aço até 2027, seu principal representante de Comércio, Jamieson Greer, minimizava a disputa. “Não esperamos um grande impacto”, afirmou Greer a repórteres.

Essa comunicação dúbia se reflete nos esforços de contenção de danos. O vice-presidente JD Vance viajou ao Maine para assegurar aos eleitores que a administração busca um “acordo justo” e para elogiar a senadora Collins, que, sintomaticamente, não apareceu em público ao seu lado. A manobra evidencia a corda bamba sobre a qual os republicanos caminham: tentar apaziguar os eleitores locais sem contradizer abertamente a agenda protecionista de Trump.

A aplicação de uma estratégia antes focada na China a um aliado histórico e integrado como o Canadá testa os limites do protecionismo. A disputa comercial com o vizinho do norte força uma escolha difícil para muitos no Partido Republicano, que se veem divididos entre a lealdade partidária e a pragmática realidade econômica de seus eleitores.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune